Rodrigo Savazoni

Nós aqui e Obama lá

Ricardo Hermann*

Os meios de comunicação de massa vêm criticando a regulação da propaganda eleitoral na rede mundial de computadores, ou seja, na Internet, feita pela Justiça Eleitoral. Afirma-se que não se estaria acompanhando o avanço tecnológico ao se regular a Propaganda Eleitoral por intermédio da Internet como se faz com a propaganda que é difundida por rádio e por televisão, meios de comunicação de massa que seriam distintos.

Recente artigo publicado no sítio Terra Magazine, de autoria do jornalista Rodrigo Savazoni, intitulado “Obama lá e nós aqui” afirma que “Obama já é o exemplo mais bem-sucedido de uso da internet para fins político-eleitorais”, lamentando que “essa história, no entanto, não seria possível no Brasil, por causa do Tribunal Superior Eleitoral”.

Tais críticas, entretanto, evidenciam, primeiro, certo desconhecimento da Legislação Eleitoral por parte de seus autores e, segundo, contornam questões cruciais no que diz respeito aos valores que permitem tanta liberdade na campanha eleitoral norte-americana e que impõem em contrapartida restrições nas campanhas eleitorais brasileiras.

No Brasil, há fixação de limites na Internet para garantir a isonomia de tratamento entre os candidatos e para evitar o abuso do Poder Econômico, situações que não se constituem em preocupações centrais nas campanhas eleitorais norte-americanas.

A Lei Eleitoral Brasileira (Lei 9.504/1997), concebida pelo Congresso Nacional e não pelo Tribunal Superior Eleitoral, estabeleceu em seu art. 45, § 3º, que se aplicam às páginas mantidas pelas empresas de comunicação social na Internet e demais redes destinadas à prestação de serviços de telecomunicações de valor adicionado restrições à divulgação de propaganda eleitoral semelhantes às impostas a rádios e televisões. Em suma, permitem-se iniciativas como debates, entrevistas e encontros, mas não propaganda paga.

Estabeleceu-se, paralelamente a isso, e aí sim por iniciativa do TSE, que a propaganda eleitoral na Internet deva ser veiculada na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral. Com isso, visou a Justiça Eleitoral impedir que um único candidato crie inúmeras páginas, valendo-se de maiores recursos financeiros e de dispendiosas empresas de propaganda, desequilibrando a utilização de tal meio de comunicação, pois é utópica a idéia de que campanhas eleitorais, mesmo na Internet, valham-se apenas de ferramentas gratuitas e conteúdos amadoristicamente produzidos.

Afora isso, a propalada possibilidade de auto-regulamentação da Internet não parece ser consensual, pois assim como serve de meio para a interação e salutar troca de idéias entre internautas, constitui-se também em mecanismo de diversos atos ilícitos (pedofilia, tráfico de entorpecentes, crimes financeiros etc.). Não é por outra razão que a União Européia, com valores mais assemelhados aos do Brasil, também estabelece regras para uso da Internet, sendo oportuno citar recente manchete obtida na própria rede: “União Européia vai regular TV pela internet” (divulgado pelo Site do jornal O Estado de S. Paulo em 18/07/05) sendo salientado que deverão haver regras de proteção às crianças e que se discute inclusive a oportunização de direito de resposta.

Ora, se a lógica das campanhas eleitorais no Brasil fosse a de obter maiores recursos financeiros como o é nos Estados Unidos, em que se celebra a arrecadação de 55 milhões de dólares para a campanha presidencial de Barack Obama, dos quais 45 milhões obtidos via Internet, poder-se-ia simplesmente transpor as regras americanas, mas será que tal lógica seria a mais adequada ao Brasil?

Na atual conjuntura, em que escândalos de corrupção, envolvendo as chamadas “sobras de campanha”, surgem dia após dia parece que não se afigura como a melhor solução. A liberdade à interação entre os candidatos e eleitores, por um meio ágil como o da rede mundial de computadores, deve ser celebrada, e não está cerceada pela Lei Eleitoral Brasileira mesmo que esta imponha determinadas regras. O que não se pode conceber é que, sob o pretexto de se ampliar a liberdade, abdiquem-se dos valores maiores que devem orientar os pleitos eleitorais e que preservam a igualdade de oportunidades entre os candidatos.

*Ricardo Hermann é juiz da 1ª zona eleitoral de Porto Alegre.

Obama lá e nós aqui

Há um ano, Barack Obama era apenas um senador em primeiro mandato, negro e jovem, que aspirava concorrer à vaga de candidato a presidente da maior potência do planeta pelo partido democrata. Seus adversários, muito mais poderosos, como o senador John Edwards e a senadora Hillary Clinton, não o colocariam como principal adversário. Para compensar essa diferença, Obama investiu em um discurso enfático de mudança, baseado no bordão “Sim! Nós Podemos!” (Yes, We can!) e na rede mundial de computadores. Por isso, venceu as prévias, e agora enfrenta o republicando John McCain para chegar à Casa Branca.

Obama já é o exemplo mais bem-sucedido de uso da internet para fins político-eleitorais. Em “A Conexão Obama”, artigo publicado no The New York Times de 26 de maio, o analista Roger Cohen explica esse fenômeno: “É a rede, estúpido!”. A frase é uma adaptação livre da citação de James Carville, papa do marketing político que trabalhou na campanha de Bill Clinton e cunhou a expressão “É a economia, estúpido!”, norteadora da estratégia bem-sucedida que resultou na vitória de Clinton sobre Bush pai. Obama é sedutor, um grande orador, um sujeito com uma trajetória irrepreensível. Não fosse a internet, porém, ele nada seria.

Para sustentar a tese, Cohen reproduz dados citados por Joshua Green, na The Atlantic. Obama teve 1.276.000 doadores em sua campanha, 750.000 voluntários ativos e 8.000 grupos de afinidade. “Em fevereiro, quando a campanha arrecadou 55 milhões de dólares (45 milhões via Internet), 94% das doações apresentaram valores menores que 200 dólares”. São números sem precedentes na história humana. Para efeito de comparação, a planilha de doações do presidente Lula na última eleição, incluindo pessoas físicas, jurídicas, comitês regionais, entre outros itens, tem 1.599 itens. No processo, o Partido dos Trabalhadores (PT) arrecadou R$ 81 milhões.

Como um vírus, o candidato foi se espalhando pelo ciberespaço, que se transformou no ponto de encontro de uma geração inteira, insatisfeita e envergonhada com os descaminhos promovidos por Bush Filho. E essa geração resolveu disputar com seus pais e avós o futuro da nação, usando a seu favor o arsenal democrático de comunicação surgido nos anos 90.

O site de Obama, por exemplo, é uma grande rede social, onde os eleitores trocam informações entre si. O candidato acompanha e usa isso em seu benefício. Nada de notícias ou informações de cima para baixo. O segredo é a interação permanente.

Seus assessores e apoiadores usam o You Tube (para vídeos), Twitter (para mensagens instantâneas), mantém comunidades em sites de relacionamento como Orkut, Facebook e MySpace, conversam diretamente com eleitores por mensageiros instantâneos, como Mesenger ou Google Talk. Tudo de legal que está disponível na rede não lhes é estranho.

Enquanto isso, em Pindorama…

Essa história, no entanto, não seria possível no Brasil, por causa do Tribunal Superior Eleitoral, órgão que disciplina o processo eleitoral no país. Em março, o TSE editou uma resolução, de número 22.718, assinada pelo ministro Ari Pargendler, para tratar de eleições e internet. Com ela, criou uma baita confusão. A norma tem vários pontos criticáveis. O principal deles é enquadrar a internet como mídia eletrônica de massa. Ou seja, como rádio ou televisão, coisa que ela não é nem nunca foi (para ficar só num aspecto, rádio e TV são concessões do Estado, site não).

Outro aspecto incompreensível da lei é o artigo que impõe a cada candidato a prefeito ou vereador o limite de ter um único site “de propaganda” na rede. A idéia dos magistrados seria garantir o “equilíbrio” na disputa eleitoral. Objetivo nobre, que corresponde ao que se espera dessa instituição da democracia brasileira. No entanto, com isso, conseguiram fazer justamente o contrário.

“O que a Justiça deveria garantir era a isonomia de espaço e o controle do poder econômico e estatal. Para tanto é necessário disciplinar o uso da TV, das rádios e da imprensa. Mas, esta isonomia de espaço existe na Internet. Os candidatos utilizando ferramentas gratuitas estão em maior equilíbrio”, avalia o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, autor de vários livros sobre internet e cidadania e uma das primeiras vozes da rede a se levantar contra a legislação.

Lá atrás, quando a resolução foi publicada, alguns setores da sociedade protestaram. Outros, incrédulos, achavam que seria mais uma dessas “leis que não pegam”. Mas ela pegou.

A primeira vítima do processo foi o candidato à prefeitura do Rio de Janeiro Fernando Gabeira (onde uma contra-resolução do Tribunal Regional Eleitoral tentou amenizar a decisão dos togados de Brasília e permitiu o uso do Orkut e do You Tube, por exemplo).

O ex-guerrilheiro, atual candidato pelo Partido Verde, entrou na disputa depois de um processo de mobilização inspirado pela “Conexão Obama”. Futuros eleitores começaram a se organizar na internet e a criar comunidades, em sites de relacionamento e blogs. Um dos idealizadores dessa mobilização foi o blogueiro Pedro Dória, vencedor do Bob Awards como o melhor do Brasil em 2005.

No final de maio, o candidato Gabeira foi notificado pela justiça. Ou tirava do ar todas as “propagandas” indevidas ou corria o risco de ter sua candidatura cassada. Ele correu atrás de Dória, que retirou o banner que estava publicado em seu blog (www.pedrodoria.com.br) e colocou no lugar uma tarja: “censurado”. Um processo de varredura teve início.

“Nenhum político paga por este banner. É uma declaração de voto pessoal de minha parte. O banner leva a um argumento pela sua candidatura. É o meu direito como cidadão de manifestar o que penso, qual o caminho que desejo para minha cidade. Ninguém deve ser punido porque exerci meu direito de cidadão em uma democracia de manifestar minha opinião”, escreveu Dória no post em que informava sobre a ação da justiça.

Segue a disputa

Esse foi o estopim. A lista de casos, desde então, só fez se multiplicar e tende a aumentar ainda mais com o avanço do processo eleitoral.

No fim de julho, outros dois candidatos a prefeito de grandes cidades foram cerceados. De coloridos políticos completamente distintos, o tucano Geraldo Alckmin e a comunista Manuela D’ávila são dois bons exemplos do que a lei em vigor é capaz de promover.

No caso de Alckmin, o juiz Marco Antonio Martin Vargas, da 1º Zona Eleitoral de São Paulo, determinou que fossem retirados do ar vídeos publicados no You Tube que estavam referenciados em seu site.

Para se ter uma idéia do absurdo em comparação ao que ocorre atualmente nos Estados Unidos, foi justamente por meio do You Tube que muitos eleitores tomaram parte do processo de mobilização em torno da figura de Obama. Em especial, de um vídeo produzido pelo músico do Black Eyed Peas, Will.I.Am, com participação da atriz Scarlet Johanson, no qual eles transformam um “discurso” de Obama em uma “canção”. Esse vídeo, em suas diferentes entradas no site de vídeos do Google, tem mais de 20 milhões de visualizações.

É certo que Alckmin e o senador americano não têm nada em comum. Mas os direitos dos eleitores de ambos os candidatos deveriam ser os mesmos.

Outra vítima dessa legislação anacrônica foi a jovem candidata Manuela D’ávila, jornalista de formação, que surgiu para a política justamente usando formas não convencionais de comunicação. Sua eleição para vereadora, quatro anos atrás, mobilizando jovens, a transformou num fenômeno eleitoral gaúcho.

Agora, ela é candidata do PCdoB à prefeitura de Porto Alegre e foi obrigada por liminar judicial a retirar do ar uma comunidade do Orkut e um vídeo do You Tube. A decisão foi tomada com base em uma representação feita pelo Ministério Público Eleitoral. A justiça, no entanto, dias depois, voltou atrás na decisão, embolando ainda mais o meio de campo desse processo.

Na avaliação de Amadeu, essa legislação brasileira foi elaborada para evitar que elementos sem chance no mundo dominado pelas empresas de comunicação passem a participar do jogo pelo poder. Ou seja, para evitar que uma história como a de Barack Obama ocorra por aqui.

“Repare que nenhum partido até agora fez um vigoroso protesto contra a Resolução do TSE. Por que? Porque o uso pleno da rede, da interatividade, do twitter, do youtube interessa somente se for para disseminar mensagens e não para interagir, para compartilhar. Pouca gente nas cúpulas partidárias brasileiras vêem com bons olhos a comunicação sem controle e o debate aberto”, afirma.

“A aplicação arbitrária de uma lei anacrônica”

O sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, professor da pós -graduação da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, promoveu no início de julho um evento para discutir a relação entre internet e eleições. Crítico de primeira hora da resolução do Tribunal Superior Eleitoral, que enquadrou a internet na mesma categoria das mídias eletrônicas de massa, ele respondeu a três perguntas formuladas por mim, de forma direta e objetiva.

O que o eleitor perde com as restrições eleitorais à internet?
Primeiro, o eleitor perde a possibilidade de um contato mais próximo com os candidatos. Segundo, perde a chance de questionamento maior das propostas e soluções que os candidatos apresentam, uma vez que a Resolução do TSE bloqueia a maior interatividade das redes sociais. Terceiro, o TSE reforça o peso da esfera pública dominada pelos mass media e diminui a força da esfera pública interconectada, dos blogs, nanoblogs, das listas de discussão, dos fotologs e videologs. Assim, ao restringir a comunicação em rede, a Resolução do TSE incentiva as grandes assimetrias que o poder econômico impõe em uma campanha do velho estilo. A Internet e suas redes de relacionamento minimizariam o peso do capital, mas os autores da Resolução preferiram tratar a Internet como se tivesse a mesma natureza do broadcasting.

Nos EUA, Obama venceu as prévias usando a internet. Por que aqui não é assim?
Exatamente para evitar que elementos sem chance no mundo dominado pelas empresas de comunicação passem a participar do jogo pelo poder. Repare que nenhum partido até agora fez um vigoroso protesto contra a Resolução do TSE. Por que? Porque o uso pleno da rede, da interatividade, do twitter, do youtube interessa somente se for para disseminar mensagens e não para interagir, para compartilhar. Pouca gente nas cúpulas partidárias brasileiras vêem com bons olhos a comunicação sem controle e o debate aberto.

De todos os aspectos da norma do TSE, qual o Sr. destacaria como o pior e o mais complicado…

A idéia de controlar e disciplinar a campanha na internet é absurda. O que a Justiça deveria garantir era a isonomia de espaço e o controle do poder econômico e estatal. Para tanto é necessário disciplinar o uso da TV, das rádios e da imprensa. Mas, esta isonomia de espaço existe na Internet. Os candidatos utilizando ferramentas gratuítas estão em maior equilíbrio. Outro ponto importante está na aplicação arbitrária da lei devido a sua dificuldade de execução. No Rio de Janeiro, uma resolução do TRE permite o uso mais flexível da internet e das redes sociais, já em São Paulo se proibe até o You Tube. Isto é um absurdo, pois enquanto o eleitor do Rio pode acompanhar o dia-a-dia do seu candidato no twitter, em tempo real, em São Paulo a Justiça evita o contato maior do cidadão com os políticos. É isto que chamo de aplicação arbitrária de uma lei anacrônica.

No último período, Gil foi ministro de Xangô

(Publicado no Estadão)

Outubro de 2007. Gilberto Gil está na Califórnia, nos Estados Unidos, para se encontrar com figurões do Vale do Silício. No Brasil, especula-se sobre sua saída do Ministério da Cultura. Gil pretende aproveitar a viagem para depositar na balança dos prós e contras razões para permanecer, ou não, no comando da pasta.

Na bandeja do “fico”, pesam a lealdade da equipe, a crescente projeção nacional e internacional de sua figura política e a confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não queria perdê-lo. No prato do “saio”, acumulam-se um calo nas cordas vocais – acostumadas a cantar, não a discursar – e a pressão da música, materializada em sua mulher e produtora Flora Gil, que desde o início do segundo mandato de Lula não escondia de ninguém querer a saída do marido.

Certa noite, no hotel, Gil conversa com um assessor. O telefone toca. Ao desligar, o ministro gargalha, divertido. Vira-se e diz que era Flora, uma disciplinada filha de santo. Ela acabara de voltar do terreiro e tinha recebido de Xangô, orixá associado à Justiça e aos raios e trovões, um recado: não era hora de Gil deixar o ministério porque ainda tinha uma missão a cumprir. Gil continua a rir.

O assessor, então, pergunta. “Mas e aí, ministro?”

Gil responde: “Agora, é Xangô, ué?”

EM TRANSE – Ambulantes no Trem

Ambulantes
Um grupo de estudantes da faculdade Anhembi-Morumbi, formado por Ana Paula Silva, Fausto Sposito, Fernanda Morais Moura, Flávio Nunes e Marcel de Lima, fez um trabalho magnífico sobre a situação dos ambulantes que atuam nos trens da região metropolitana de São Paulo.

Eles usaram textos, áudios, vídeos, fotografias, mapas interativos para contar histórias de homens e mulheres que diariamente batallham pela sobrevivência nos vagões da CPTM.

Também oferecem ao internauta um conjunto muito interessante de documentos e análises, com economistas e especialistas, o que ajuda a contextualizar o fenômeno da informalidade, tão característico deste nosso Brasil desigual. Confiram como já é o jornalismo do futuro.

EM TRANSE – Abuso Sexual Infantil

Abuso

A equipe de reportagem do JC Online, de Pernambuco, um dos maiores e mais importantes jornais regionais do Brasil, é a melhor do país. Ganhou todos os mais importantes prêmios nos últimos anos, inclusive o latino-americano de jornalismo, concedido pela Fundación para El Nuevo Periodismo Ibero-Americano (FNPI), criada pelo escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez.

A equipe coordenada por Julliana de Melo lançou em maio um novo trabalho, extenso, detalhado, muito bem apurado, sobre o abuso sexual infantil. Tema difícil, delicado, que mexe no íntimo de famílias.

O resultado é surpreendentemente bom. Confiram como na grande imprensa também se faz bom jornalismo. Ou grande jornal do Recife não é grande imprensa?

Coluna na Revista do Brasil

Começo este mês a publicar uma coluna mensal na Revista do Brasil.

O nome do projeto é EM TRANSE. O objetivo é falar desse nosso cenário em mutação, dos impactos nas nossas vidas, de um jeito bem simples, didático, para um público não iniciado, mas que sente que algo está ocorrendo ao redor – e que vai ser protagonista ou vítima desse processo de hiperconectividade social em curso.

Serão duas páginas de revista por mês: bastante coisa. Na primeira, um texto corrido, sobre algum assunto relevante do momento e a segunda com dicas e sugestões, minhas e dos leitores. Portanto, enviem suas propostas, que eu terei o maior prazer em aproveitar por lá. Estou trabalhando na criação de uma comunidade de leitores da coluna.

Abaixo, a versão que enviei para publicação. No papel, sofreu pequenos ajustes:

A máquina somos nós

A internet mudou nossas vidas. E isso é só o começo. Nos últimos anos, muitos brasileiros caíram na rede e descobriram como é legal interagir para obter e produzir informações. Números divulgados pelo Datafolha em agosto do ano passado apontam que temos no país cerca de 50 milhões de internautas com mais de 16 anos. Contando que muita gente com menos de 16 usa internet, dá para estimar que já somos uns 70 milhões em ação.

Dos países do planeta, O Brasil é aquele onde as pessoas mais passam tempo navegando, conforme dados de abril divulgados pelo Ibope/Net Ratings. Ainda assim, há quem tema a internet e as mudanças que ela promove. Muita gente simplesmente não a entende. Quem entra, porém, não vive mais sem.

Um vídeo que ajuda a compreender essa explosão de interesse, fascínio e apreensão, é A Máquina Somos Nós, produzido pelo Professor-Assistente de Antropologia Cultural da Universidade do Kansas, Michael Wesch. Está no You Tube.

Nesse vídeo, Wesch fala de uma coisa chamada Web 2.0. Já ouviu falar?

Pois é, para explicar a expressão, recorro justamente a um dos sites da Web 2.0: a Wikipedia. A maior enciclopédia do mundo é escrita por todos nós. Sim, trata-se de uma espécie de biblioteca infinita, feita da colaboração entre internautas. Nela, a gente produz os verbetes, outras pessoas acrescentam informações, melhoram e fazem consultas.

E o que a Wikipedia nos diz sobre Web 2.0? “É um termo cunhado em 2004 pela empresa estadunidense O’Reilly Media para designar uma segunda geração de comunidades e serviços baseados na plataforma Web, como wikis, aplicações baseadas em folksonomia e redes sociais”.

Complicou? Para simplificar, então. Web 2.0, por exemplo, é o Orkut, um site de relacionamento onde tudo é produzido pelos usuários, é possível montar comunidades, conhecer pessoas, organizar suas fotos, seus vídeos, visitar seus amigos, mandar mensagens, enfim…

Outro exemplo é o Delicious (http://del.icio.us), um site que nos permite catalogar páginas favoritas de forma que outras pessoas possam vir as nossas dicas. Esse processo, de cidadãos organizando conteúdos, ganhou o nome de Folksonomia.

O próprio You Tube, onde está armazenado o vídeo de Wesch, pertence a esse cenário 2.0. Nele, quase nada do conteúdo disponível é produção da empresa que criou o serviço. São os usuários que mandam, produzem, trocam e interagem. Para se ter uma idéia do fenômeno, o You Tube, no Brasil, está entre os dez sites mais acessados. É o quarto, no ranking Alexa.

A Web 2.0 é grande responsável por tanta gente gostar da rede. A gente poderia também chamá-la de Web Social, nome que me agrada mais porque Web 2.0, como citado acima, é criação de uma empresa. Não passa de um rótulo para algo que segundo Tim Berners Lee, o pai da internet, é a própria essência desse novo meio de comunicação.

Também gosto da expressão Web Social porque os sites que fazem sucesso são justamente aqueles que se moldam às nossas vidas. Um exemplo: na época do analógico, tirávamos as fotos, colocávamos no álbum e esperávamos uma visita para compartilhar. Hoje, basta criar um fotolog e enviar o link, que mesmo aquele amigo que mora muito longe pode acompanhar a sua história. Os sites estão cheios de serviços assim. O site fotolog, por exemplo, é o número 18 no ranking Alexa. É um site social. 2.0, se você preferir. Um sucesso.

O filme de Wesch, de menos de dez minutos, explica como é que isso tudo surgiu, de forma bem didática. Nele, há uma frase que sintetiza o que escrevi até agora: “a web não é mais apenas para ligar informações, a web é para ligar pessoas, a web 2.0 é para ligar pessoas, compartilhando, trocando e colaborando”. Por isso a nossa vida mudou.

COMENTÁRIO: Ainda acho que não atingi o tom nesse coluna. Queria ser didático, simples, mas acho que juntei muita coisa, no mesmo lugar. A segunda, que no próximo mês compartilho com vocês, sobre a terceira geração de celulares, acho que já ficou bem melhor.

Algumas considerações sobre o NewsCamp

Sábado participei pela primeira vez do NewsCamp, a convite da jornalista e blogueira Ceila Santos. Na edição passada, meses atrás, fui apenas para o botequim, encontrar-me com quem já conhecia.

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O legal desse tipo de processo é que ele permite a pessoas que já se relacionam pelas veredas do ciberespaço o saudável cruzamento de olhares. Apertei a mão e dei beijinho no rosto de muita gente que leio e ouço e que me ajuda a entender melhor o que está ocorrendo com os jornalistas. Não podemos desprezar a importância disso.

Acho que o Paulo Fehlauer e o Francisco Madureira, dois dos caras que me fazem acreditar que a nossa geração pode construir um país muito melhor do que este que nos foi legado, acertaram em cheio em suas análises.

Sinto-me contemplado por aquilo que eles escreveram. Mas queria falar sobre a dificuldade que temos, todos, de canalizar a enxurrada, de colar fragmentos, de navegar na neblina, neste nosso tempo de revolução tecnológica.

A desconferência para a qual fomos convidados versou sobre o modelo de jornalista que o mundo atual exige. Baseei minha intervenção na assertiva de Eugênio Bucci de que o jornalismo é uma práxis ética. Nasce com a democracia e dela depende para se realizar. Isso não mudou. Mudou, no entanto, a forma de realizar o ofício. E a forma de aprender o ofício.

Um dos primeiros aspectos que eu destacaria, portanto, é que o profissional de mídia precisa de formação permanente, continuada, o que não ocorre hoje em dia.

Outro aspecto que queria destacar, e que ontem foi comentado na entrevista do Caio Túlio Costa no Roda Viva, é a ligação do jornalismo, da prática de informar, com o direito que temos todos de nos comunicar, o que só ocorre dentro do império da liberdade.

O jornalismo só faz sentido se partir do público, para o público, pelo público. Agora, com as novas tecnologias, se for realizado COM o público (que deixa de ser público, para ser interator, produtor). É nisso que acredito. E acho que os jornalistas devem pensar assim.

A evolução tecnológica alterou a noção de propriedade dos meios (ampliando o acesso). Com isso, mais pessoas podem participar dos ritos de comunicação. Mais pessoas aprendem o ofício de produzir informação. Daí a necessidade de um debate sobre ética que não se restrinja ao papel do jornalista.

Precisamos de uma ética que esteja atrelada ao ofício de produzir informação, a ética interativa, talvez.

No mais, queria dizer que, num cenário como esse, de evolução para a democracia direta, o jornalismo só fará sentido enquanto desempenhar um papel central para a construção da nossa sociedade. Se for apenas um local de envenenamento da luta política (Humberto Eco), será combatido pela sociedade, que passou a ter meios para enfrentar também esse poder.

Foto: Paulo Fehlauer

Ao vivo, do meu celular

Meses atrás comprei um N73 da Nokia. Aproveitei uma promoção da TIM e meti nele um pacote de dados. O N73 roda o Symbian, sistema operacional proprietário, mas muito bom. E é um celular 3G. Da NSeries, da Nokia, é o mais simples, e paguei nele cerca de R$ 300.

Desde então, venho baixando brinquedos para ele. Na semana passada, baixei o software Qik, que pode ser encontrado no site social de mesmo nome. E fiquei embasbacado. Bom, o Qik oferece streaming de vídeo a partir do seu celular. Sua usabilidade é perfeita. Você aciona um comando e começa a transmitir. Quem estiver no site Qik assiste ao vivo. Quando você termina de gravar, o arquivo já fica disponível em sua página.

Na minha primeira transmissão, entrevistei Carlos Seabra, do IPSO, um dos mais importantes comunicadores e educadores brasileiros, que está por trás de muita coisa bacana que é feita na web neste país. Nessa conversa, de um minuto, ao vivo, ele falou sobre o uso educacional do celular. Vejam o resultado. E comentem.

Adeus ao libertário

Essa foto, a única que encontrei de Roberto Freire, o anarquista, no Flickr, é minha homenagem ao grande libertário, que morreu no sábado, com mais de 80. Freire foi excelente em tudo o que fez.

Roberto Freire

Quando li sua autobiografia, Eu é um Outro, fixei-me em uma passagem curta de sua trajetória, mas que no auge da crise política do governo Lula me ajudou a encarar os fatos e olhar o futuro refletido no retrovisor. Freire, por um breve período, trabalhou no Ministério da Cultura do Governo de João Goulart. No livro, ele lembra com nostalgia sua passagem pelo poder público federal, antes dos 30 anos, e faz uma reflexão saudável sobre as contradições de servir ao público por dentro do estado.

Para não falar nas reportagens da Realidade, escritas por ele, que li ainda na faculdade. E das discussões com alguns bons amigos sobre anarquia, inspirados pela defesa enfática que Freire fazia da liberdade e do indivíduo, sem perder jamais de perspectiva a importância de servirmos ao bem de todos. Não o conheci pessoalmente. Tive algumas chances. Agora, me arrependo de não ter forçado a barra para conhecê-lo. De repente, me bateu uma baita saudade.