Rodrigo Savazoni

Sobre o prêmio Pulitzer para o Politifact

Ano passado eu ajudei a construir a cobertura das eleições municipais para o Estadão. Meu negócio, como sabem, é web. Foi nisso que trabalhei. Desenhei, com a Lulu e o Tiagão, o site especial que abrigaria a cobertura do portal e realizei alguns projetos especiais que foram muito bem recebidos pelos meus pares, mas principalmente pelo público. É isso que me importa, sem demagogia.

Por lá, produzi o Vereador Digital, o Eu Prometo e também o mural de apuração online, que, até onde sei, se tornou o maior blockbuster do grupo. Também auxiliei o Jelin na elaboração de dois infográficos sensacionais, que receberam o nome de A Geografia do Voto: um deles, com os votos por município, o outro um mega recorte sócio-cultural da votação dos partidos.

Não é de hoje que cubro eleições. Essa foi a quinta que participei. Em 2000, fiz alguns frilas. Em 2002, trabalhei na campanha do Lula, em 2004, participei da cobertura eleitoral da Radiobrás. Em 2006, participei da montagem de uma das experiências mais fascinantes da minha carreira, que foi a cobertura integrada e multimídia da eleição que reconduziria Lula ao poder. Em 2008, toquei esse trabalho no Estadão, do qual muito me orgulho.

Nos EUA rolava a eleição americana, que levaria Barack Obama à presidência. Como sabemos, foi uma eleição em que a internet jogou papel preponderante. No meio de um imenso volume de conteúdos e formatos, um trabalho logo de cara me chamou a atenção: o PolitiFact. Falei dele com quem pude. Mas poucos compartilharam comigo essa felicidade, o que não me abalou.

Acompanhei o projeto desde os primórdios. Falei dele em um debate na MTV. Tentei convencer meus chefes a fazer algo semelhante por aqui. O verdadômetro que eles desenvolveram, que funcionava como um filtro para o imenso volume de informações que circulavam durante o processo eleitoral, soou-me coisa de gênio.

Qual o papel do jornalismo no mundo contemporâneo, em que qualquer um pode ser um produtor de informação? Ainda seria pôr a salvo a verdade?

Um meio de fazer jornalismo seria filtrar o que se produz de conteúdo, de forma inteligente, usando de instrumentos da investigação jornalística.

Pois é exatamente isso, e nada mais, que O PolitiFact faz. Checa dados, desconstrói discursos, apura o contexto de informações que já estão disponíveis e sendo propagadas para e pelos cidadãos. Cria uma nova camada de informação sobre a informação diluída. É como uma hemodiálise. O antídoto para um fluxo ininterrupto de informações que afasta o cidadão do conhecimento.

Como escreve Aron Pilhofer:

Jornalismo serve para ajudar as pessoas a entenderem questões importantes e como essas questões tocam-nas diretamente. Serve para descobrir aquilo que alguém pretende manter encoberto. Serve para fiscalizar pessoas que nós escolhemos para altos cargos públicos. Tomando como base todas essas definições – e outras quantas você queira encontrar – Politifact mais que passa no teste. O site pega uma forma tradicional de produzir reportagem – checar o que os políticos dizem – e a transforma de um jeito só possível na web.

Essa foi uma das características do PolitiFact que mais me seduziu: o fato de ser uma ideia jornalística inteligente, que demonstra o quão importante pode ser o jornalismo na era digital.

E esse deve também ter sido o motivo que seduziu o júri do Prêmio Pulitzer a conceder à equipe do St. Petersburg Times o prêmio de melhor cobertura nacional de 2008. Como afirma Pilhofer, isso coloca o jornalismo online em um outro patamar.

Por isso, o prêmio deles é, sem dúvida, uma vitória de todos nós que topamos o desafio de fazer jornalismo de qualidade e espírito público na rede mundial de computadores.

Para entender a internet

Como me tornei um blogueiro fora de forma, absorto com a recuperação do Ronaldo (será que vai mesmo?), demorei para publicar aqui o anúncio do lançamento do livro colaborativo Para entender a Internet, organizado pelo Juliano Spyer, e para o qual escrevi um artigo sobre Exclusão Digital.

Para Entender a Internet

PS – Se você não entendeu a citação de 70 milhões de usuários de internet no Brasil feita no texto, leia este post aqui.

Em transe: A melhor TV Digital

Ela não é uma evolução da televisão. É mais parecida com um computador. E está em construção

Clay Shirky, pesquisador norte-americano de novas mídias, escreveu um livro chamado Here Comes Everybody e mantém um blog com o mesmo nome. Em um texto publicado recentemente, ele compara a mídia no século 20 a uma corrida na qual só o que importa é consumir e indica que a mídia daqui para a frente será um triatlo, em alusão à modalidade esportiva em que os atletas nadam, pedalam e correm para cumprir a prova: “As pessoas consomem, mas também gostam de produzir e de compartilhar”. Ou seja, é uma mídia feita por e para todo mundo.

A TV Digital que se discutiu no Brasil, nos últimos anos – que consiste basicamente na migração do sistema de televisão aberta e gratuita do formato analógico para o digital – pertence a esse velho mundo que está ruindo. Ninguém, no fundo, quer uma televisão que continue a estimular a passividade do público, que não permita interação, que apenas ofereça uma qualidade de imagem melhor.

De acordo com dados do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre divulgados em dezembro, quando o SBTVD fez um ano, apenas 150 mil receptores fixos foram vendidos no Brasil. A estimativa dos promotores do sistema é de que 600 mil pessoas tenham hoje acesso à TV Digital no país. Além disso, foi divulgado que a sonhada interatividade (o que poderia ser o diferencial da TV digital) só deve chegar – se chegar – em 2010.

Enquanto isso, uma outra TV Digital se estrutura no mundo todo, resultado da convergência do audiovisual com a internet. Uma TV Triatlo, para pegar a imagem construída por Shirky. Essa é a grande aposta de 2009. É assim que pensa Steve Balmer, sucessor de Bill Gates na Microsoft, conforme registrou o site G1: “Por mais de 60 anos, a TV se tornou o principal centro de entretenimento da família. Sua resolução das imagens melhorou, mas as funcionalidades se mantiveram praticamente as mesmas. Agora é a hora de TVs mais conectadas e do fim das barreiras entre televisão e computador”.

Um dos mais recentes exemplos dessa visão é o projeto internet@TV, parceria do Yahoo! com a Intel, que consiste num conjunto de aplicativos que rodam integrados a vários modelos de aparelhos de televisão. Usando o controle remoto, o usuário de TV passa a navegar na web. Não se trata de transformar a televisão em um computador, mas de um formato híbrido.

O presente ainda demonstra que a rainha dos lares brasileiros segue firme em seu trono. O futuro, no entanto, passa por aí.

A audiência dos telejornais, telenovelas e demais produtos das emissoras abertas até agora apenas sofreu arranhões. Mas, conforme reportagem publicada pela edição de novembro da revista Tela Viva, especializada no mercado de telecomunicações, o público plenamente satisfeito com a TV aberta está concentrado na faixa de idade com mais de 50 anos. Os mais jovens querem o triatlo (veja o gráfico).

Como será o amanhã

Ainda é difícil saber como será a TV do futuro, mas algumas experiências que estão em curso, no Brasil e no exterior, já apontam um caminho. Você já ouviu falar no Napster? O software que acabou com a indústria da música, por permitir às pessoas trocarem arquivos entre suas máquinas. E no Skype? O software que oferece ao usuário fazer ligações telefônicas pelo computador a custo zero. Pois bem, esses dois programas têm em comum o fato de utilizar Peer-to-Peer (ponto a ponto, ou, em tradução livre, pessoa a pessoa), tecnologia que permite às máquinas (consequentemente aos indivíduos) dialogar.

Essa ideia, aplicada à transmissão de arquivos audiovisuais, recebeu o nome de broadcatching e poderá ser o vilão definitivo da radiodifusão (broadcast). Um dos mais interessantes softwares de broadcatching é o Miro, que você pode instalar em seu computador. Ele funciona em formato de compartilhamento de arquivos sob demanda e permite a “assinatura de canais”, alguns deles exclusivos. A maioria das ofertas é apenas em inglês.

Transmissão participativa

Desde setembro, a TV Cultura, no endereço www.radarcultura.com.br/rodaviva, promove transmissões experimentais participativas do programa de debates Roda Viva, às segundas-feiras à noite. Em uma página web são exibidos três vídeos, um deles com a transmissão “oficial”, outro com os bastidores (que ficam permanentemente no ar, inclusive antes e depois do término do programa) e outro que acompanha o cartunista Chico Caruso.

Nessa mesma página há também um chat e ambientes que reúnem mensagens postadas pela rede social Twitter e fotos feitas na arena do programa por usuários da rede social Flickr. Nos intervalos, a repórter Lia Rangel invade a roda e faz aos entrevistados as perguntas propostas no chat ou pela Twitter. Essa interação tem agradado muito os participantes da experiência.

Em transe: A web imita a vida

As redes sociais, ou sites de redes sociais, são uma febre – e para muitas pessoas – a única coisa que existe na internet

O ativista Cláudio Prado, presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, narra um episódio ocorrido com ele em uma favela. Ao ministrar uma oficina sobre novas mídias, perguntou aos 30 meninos e meninas participantes quantos acessavam a internet: 22 levantaram a mão. Na sequência, perguntou quantos usavam Orkut: 26 se manifestaram. No Brasil, a impressão que passa é a de que as redes sociais são maiores que a própria rede mundial de computadores. Mais de 50% dos perfis criados no Orkut são “brasileiros”.

Mas o que é uma rede social? Segundo danah boyd, estudiosa do tema e consultora de grandes empresas do mundo, um site de rede social tem três características: 1) permitir ao usuário construir um perfil; 2) articular uma lista de amigos e conhecidos; e 3) visualizar e cruzar sua lista de amigos com os seus associados e com outras pessoas dentro do sistema. O Orkut é o grande fenômeno, mas há outros casos.

No Dogster ou no Catster, donos de bichos de estimação constroem os perfis de seus animais e trocam informações. O MyChurch reúne igrejas, paróquias e fiéis e conecta pessoas que compartilham da mesma fé – aqui acontecem até cultos.

Há também opções, por assim dizer, mais mórbidas, como o Always be Remembered e o Gone too Soon. As duas mantêm perfis de pessoas que morreram, criados por amigos e familiares.

Nos primórdios, as redes sociais foram pensadas para aproximar pessoas que não se conheciam. Logo, percebeu-se que seriam muito mais úteis se trouxessem para o mundo virtual as relações já existentes fora da web (laços consolidados). Foi assim que o Friendster, rede pioneira em sucesso, se consolidou, nos idos de 2002.

No entanto, nos últimos anos, temos visto a volta de redes mais focadas, como as que citei anteriormente ou como a LinkedIn, dedicada a currículos e ao gerenciamento de contatos profissionais.

De tudo o que vi até agora – e estou sempre rastreando novos exemplos -, a mais diferente foi a Muslima, redepara acerto de casamentos entre muçulmanos, criada pela equipe da Cupidmedia. Como não consegui entrar, não descobri se são as próprias pretendentes que participam ou os seus pais.

A web imita a vida. Quer se organizar politicamente? Namorar? Encontrar um emprego? Publicar vídeos, fotos, jogar on-line ou homenagear alguém que já se foi? Todos os caminhos levam a uma rede social.

Ouça música

Blip FM (www.blip.fm), Last FM () e AccuRadio (www.accuradio.com).

O MySpace poderia estar na outra lista, pois é um dos sites mais vistos do planeta e também funciona como uma rede social normal, completa, como Orkut ou Facebook. Mas o legal mesmo ali é fuçar na área de música, na qual estão disponíveis perfis de bandas e cantores, dos grandes sucessos aos notórios anônimos. A LastFM reinava absoluta no universo das rádios colaborativas, em que era possível criar uma programação e ser ouvido pelos seus amigos, até surgir a Blip.FM, que é uma ferramenta de brincar de DJ e recomendar canções muito divertida.

As maiores
Orkut, Facebook, Skyrock, Cyworld, Bebo, Hi5

Líderes de mercado, essas redes são muito parecidas entre si. Oferecem, quase todas, as mesmas funcionalidades. A CyWorldCyworld é mais utilizada em países asiáticos, como a Coreia, onde surgiu, e a China. O Skyrock é o terceiro site mais acessado na França (os franceses têm sempre de ter seu próprio produto). A <a href="Hi5“>Hi5 bombou em países hermanos e recentemente chegou mais forte ao Brasil. A Bebo foi durante um bom tempo uma rede quase exclusiva do Reino Unido. Facebook é, de todas elas, a mais mundial, a mais “intelectual” e a mais internacional.

Legais ou ilegais

Barack Obama criou uma rede e usou-a para mobilizar a juventude durante sua campanha. Tornou-se presidente. Resta saber se vai barrar no Congresso americano o projeto de lei que propõe impedir o acesso a sites de redes sociais em escolas e bibliotecas públicas. Tomara que ele não siga o exemplo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Durante a campanha, Kassab criou a K25, uma rede social para organizar seus correligionários. Mas, no mesmo período, assinou um decreto que impede o acesso ao Orkut e a outras redes nas escolas da maior cidade brasileira. Para o político brasileiro, rede social boa é a dele.

Crie a sua
Se nada agradou, vá ao site do Ning e crie a sua rede social, sobre o tema que quiser. Geralmente, as redes criadas no Ning são menores. Elas são um ótimo substituto para o grupo de e-mails e trazem as mesmas funcionalidades que as melhores redes sociais da web.

Ainda sobre o nerdismo na Campus Party

Carlos Carlos, video-ativista, criador do programa Bola e Arte, e repórter da Fiz TV, filmou de forma privilegiada (no primeiro vídeo que publiquei é possível identificá-lo em cima do palco) o embate entre os nerds e De Leve, um dos eventos dispensáveis da Campus Party.

O realizador entrevistou longamente De Leve e Chupa, o nerd que tentou tirar o músico do palco à força. Neste vídeo que republico abaixo ele desnuda a origem do nerdismo. As cenas são auto-explicativas, mas vale destacar o choque de classes patente no discurso de um e outro.

Aproveite e veja também o Bola e Arte

PS – Em seu blog, De Leve afirma que não foi tirado do palco, que fez o show até a última música. Fica a correção. As imagens, da forma como foram editadas, e a fala da músico que se ouve no filmete (alegando que pretendia encerrar o show para não causar mais confusão), dão a entender que o show terminou antes do previsto.

Revolução dos Nerds ou Nerdismo (uma variação do Nazismo)?

Toda tentativa radical de cerceamento à liberdade de expressão é, em resumo, um atentado à sociedade e à inteligência.

As imagens do vídeo de jovens campuseiros tentando tirar à força um músico do palco assemelham-se às de uma manifestação nazista – cenas, evidentemente toscas, que remetem aos frames produzidos por Ettore Scola sobre a passagem de Hitler por Roma, durante o governo de Mussolini.

O rapper De Leve ontem foi vítima do nerdismo, uma variação longínqua do nazismo. A movimentação da massa em fúria emerge de uma visão conservadora e moralizante. Eram nerds ou a liga das jovens católicas que queriam impedir o rapper de balançar o cu?

De Leve é um artista contemporâneo. Um remixador. Um cara pioneiro na defesa da música livre, no manejo de direitos flexíveis. Por isso, esse post é em defesa do De Leve e de todos que lutam contra os cerceadores das liberdades

Aqui o blog do De Leve.

Para encerrar 2008

Passei meses sem blogar. Hoje, postei aí embaixo uma das colunas que escrevi para a Revista do Brasil, que em 2009 deve estrear seu novo site, com o qual pretendo seguir colaborando.

Nesse hiato, não escrevi sobre muitas coisas que rolaram comigo. Coisas que precisava ter compartilhado por aqui. Para não fazer isso de novo, resolvi escrever uma mensagem genérica de fim de ano. Um balanção da vida neste período. Melhor isso que nada.

Fiquei nove meses no Estadão, trabalhando no desenvolvimento de novos projetos. Queria ter compartilhado mais o que fiz por lá. Acho que ainda dá tempo. Vou me dedicar a isso em janeiro, considerando que terei mais tempo para mim e para os meus projetos.

Em 2009, passo a coordenar o processo do Fórum da Cultura Digital que o Ministério da Cultura, em parceria com a Rede Nacional de Pesquisa, deve anunciar em breve. Também quero escrever bastante sobre esse novo esforço.

Confesso que para mim 2008 foi um ano estranho. Ano de readaptar-me a São Paulo, depois de cinco anos de Brasília. Não foi fácil. Mas foi bom. É bom estar aqui. Muito embora meu encanto pela metrópole tenha diminuído bastante.

Na lista dos melhores acontecimentos do ano, está o fato de que consegui dar início a algo que sempre quis: lecionar. Participei no primeiro semestre do projeto Repórter do Futuro, coordenado pelo Sérgio Gomes, da Oboré, e, no segundo semestre, dei aulas na Universidade de São Paulo, em parceria com meu mestre Eugênio Bucci, sobre jornalismo online. No balanço final do curso, o retorno que tivemos dos alunos foi muito positivo.

Os encontros também se fizeram presentes nesta temporada. O principal deles com uma turma sensacional de jornalistas e comunicadores que insistem em afirmar o interesse público na rede. Nos reunimos quase todas as quintas-feiras para pensar formas de agir conjuntamente, fizemos algumas coisas legais, mas muito ficou por ser feito em 2009.

Também foi um ano de reconhecimentos. O último trabalho que fizemos na Agência Brasil, o Nação Palmares, ganhou o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e o projeto Vereador Digital foi premiado na cerimônia dos melhores do ano que o Estadão promove.

A frustração ficou por conta da seleção de mestrado na Escola de Comunicação e Artes da USP. Não passei na prova teórica. Não sei o que ocorreu. Li a bibliografia básica, a específica, usei o conhecimento acumulado nas respostas, mas não consegui tirar sete. Fazia quase dez anos que eu não prestava um exame. Talvez tenha sido isso.

O bom é que escrevi o meu projeto de pesquisa e dialoguei com muita gente boa sobre ele. O principal eu já tenho: um plano. Ano que vem, tento de novo. Ao menos, e isso é fantástico, meu irmão André Deak foi aprovado e vai nos representar muito bem por lá.

Em casa, vai tudo muito bem. Francisco e Júlia crescem felizes. Lia tem feito um grande trabalho com as transmissões participativas do Roda Viva, na TV Cultura. Seguimos cultivando diariamente o amor. Os amigos estão sempre por perto. As idéias persistem em brotar.

Portanto, só posso agradecer. A quem quer que seja.

Agradecer, por exemplo, a você que insiste em vir aqui, mesmo com tanta omissão de minha parte. Aos persistentes interatores: um ótimo 2009! Espero que possamos continuar conversando, com mais freqüência (acho que é a última vez que usa uma trema na vida), no ano que terá início na quinta-feira.

Em Transe – Em nome da liberdade

Em mais uma coluna para a Revista do Brasil, tentei abordar de forma bastante didática – e da perspectiva de um consumidor comum – como é possível viver bem sem Windows e outros softwares proprietários

Outro dia um amigo me contou uma história que ouviu de um vendedor da Casas Bahia sobre um computador com preço abaixo de R$ 800, em parcelas mensais de R$ 50, a perder de vista. O vendedor, gente fina, alertou-o que aquele era um computador “com problema” e, solícito, indicou um amigo que “resolve por R$ 40”. O problema era que o computador popular vinha com uma distribuição do Linux, um software livre, e não com o Windows, sistema operacional da Microsoft. Mas será que isso é mesmo problema?

Um computador pessoal, que usamos para escrever mensagens, acessar a internet e papear no Orkut, é composto de hardware e softwares. Hardware é o “corpo” da máquina e softwares são o cérebro e o sistema nervoso, que o fazem funcionar. O software mais importante é o sistema operacional, que ativa “as engrenagens” da máquina e permite entender os comandos que o usuário quer que a máquina execute. Dentro do sistema operacional são instalados os demais softwares, que vão satisfazer as necessidades de seu dono, como o software para escrever textos, para editar fotos, vídeos ou áudios, para enviar e receber e-mails, navegar na internet.

O sistema operacional líder de mercado é o Windows. Mas ele não é a única opção. A Apple, por exemplo, faz hardwares – como os charmosos computadores Macintosh, o iPhone, o iPod – e também produz seu próprio sistema operacional, o Mac OS, preferido de quem trabalha com multimídia e design gráfico.

Para os PCs convencionais, existe um grande número de distribuições de sistemas operacionais baseadas em Linux. E esses softwares têm sido cada vez mais bem-aceitos. Muitos são mais fáceis de instalar que o Windows e não perdem nada em termos de oferta de serviços. Além do mais, são produtos livres, gratuitos e também não se paga nada quando se adquire uma versão mais atualizada.

O melhor de todos é o Ubuntu, cuja última versão é a 8.10 (para fazer o download gratuito basta ir ao site www.ubuntu.com). Desenvolvido por uma comunidade de programadores, ele se destaca porque foi pensado para o uso de gente que não sabe escrever códigos. A palavra Ubuntu, de origem africana, significa “Eu sou o que eu sou porque você é o que é”. Algo que procura estimular os laços entre os seres humanos. Sua instalação demora em torno de 25 minutos.

Outra distribuição bacana é o OpenSuse, mantido pela Novell, empresa com quase 30 anos de existência que foi redefinindo sua área de atuação para se concentrar apenas em produtos livres. O Suse dá muita ênfase à parte gráfica, é bonito e oferece recursos para o usuário deixá-lo com a cara que quiser.
No Brasil, a comunidade de desenvolvedores produziu o Kurumin. Talvez você já tenha até visto a logomarca com o indiozinho em bancas de jornais, porque sempre há uma versão desse sistema sendo vendida em revistas do ramo. É uma solução nacional, muito bacana.

Quem quiser ter mais opções, pode experimentar o Debian, o Red Hat ou o Mandriva. A lista não para. Uma busca pela internet pode levar a muitas opções.

O computador que meu amigo queria comprar na Casas Bahia vinha com Linux, o que, evidentemente, não é um problema. Aliás, é preferível usar um software livre a uma versão pirata de Windows, que o amigo dele iria instalar por R$ 40 (no varejo, a versão mais simples do Windows Vista sai por volta de R$ 300 e a distribuição completa chega a R$ 800).

As principais empresas do mercado brasileiro, como Dell e Positivo, não divulgam a composição do preço de um computador. Uma parte é hardware e imposto. Outra é software. É difícil, portanto, descobrir na ponta do lápis quanto se pode poupar de cara ao escolher um software livre. A avaliação deve ser feita caso a caso. A dica é investigar bem antes de escolher o PC e pensar mais ainda antes de investir qualquer quantia em licenças de software proprietário (inclusive porque elas são renováveis todos os anos).

Portanto, se você já é dono de um dos 12,5 milhões de computadores que serão vendidos no Brasil neste ano – ou tem em seu computador uma versão pirata de software proprietário, ou uma versão original em vias de inspirar –, digo por experiência própria: é possível viver bem sem produtos da Microsoft. Logo, você vai descobrir que é muito bom ser livre.

O que é um software livre?

Todo software é escrito em códigos de programação. Livre é aquele que permite a qualquer um ver esse código, o que significa ter a possibilidade de entender como funciona o programa, podendo modificá-lo de acordo com as necessidades do usuário. Como escreve André Deak, “é como se um programa de computador fosse o bolo e o código dele, a sua receita. No software livre, as pessoas têm acesso à receita, o que possibilita que alterem o sabor do bolo como preferir”. No modelo proprietário, as pessoas não têm acesso à receita. A opção pelo software livre permite o desenvolvimento tecnológico e a criação de comunidades voltadas para melhorar os programas em benefício de todos os usuários.

Computação em nuvem

A discussão sobre sistemas operacionais tende a se tornar obsoleta quando falamos de computação em nuvem, tradução do termo em inglês Cloud Computing. Basicamente, estamos falando de colocar tudo o que temos hoje dentro das nossas máquinas em algum lugar da rede, acessível de qualquer lugar, a qualquer hora (pelo computador do trabalho, da lan house, do celular), por você mesmo ou por outras pessoas às quais você dê permissão. É como já ocorre com a maioria das contas de e-mail. Suas mensagens estão armazenadas em um servidor – que você não sabe onde fica – e podem ser acessadas de qualquer máquina, a qualquer hora. A tendência é justamente que isso ocorra com toda a computação. O futuro passa por aí.

A cara-de-pau da Justiça Eleitoral

Matéria publicada hoje no G1, portal de notícias da Globo, é uma das maiores demonstrações de cara-de-pau da recente história política brasileira.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, depois da lambança cometida pelo órgão que ele presidente diz agora “que os candidatos podem usar a internet como uma ferramenta de campanha”. Segundo ele, o tribunal foi mal compreendido e por isso o uso da internet foi reduzido durante a campanha.

“Nós facilitamos o uso da internet quando nos propusemos a atuar mediante o abuso. Os partidos, os candidatos e os críticos não compreenderam e houve uma retração do uso, que é até indevida. É possível sim usar a internet com mais desembaraço. Quem sabe agora, no segundo turno, nós tenhamos que rever a matéria em questão de ordem e aclarar o significado da nossa decisão”, disse o magistrado em entrevista no dia das eleições.

Recupero aqui alguns textos que escrevi nesses meses de processo eleitoral:

  • Obama Lá e Nós Aqui
  • Entrevista com Sérgio Amadeu
  • Mais sobre a Justiça Eleitoral
  • Entrevista com um censurado
  • Uma resposta coletiva
  • A visão de André Deak
  • A visão de Antonio Biondi
  • A resposta do Juiz
  • Mais sobre a Justiça Eleitoral

    Texto publicado originalmente pela Revista do Brasil

    A política sofreu abalos sísmicos com a criação da internet. Se, no passado, manter gente mobilizada, em contato permanente, era algo que exigia muito esforço dos militantes, hoje a realidade é completamente distinta. Grupos de e-mails e fóruns virtuais dão cabo do problema. Redes sociais, então, nem se fale. Quantas não são as comunidades no Orkut, no Facebook ou no MySpace dedicadas a causas políticas as mais variadas?

    Nos últimos anos, tornou-se hábito de vereadores, deputados e até mesmo prefeitos e governadores usarem esses mecanismos para realizar uma comunicação mais interativa. O objetivo desses homens públicos – ao menos dos sérios e inimputáveis – é construir novas pontes com o que a população almeja e assim realizar com mais qualidade a função para a qual foram eleitos, ampliando o diálogo entre representantes e representados.

    Num período eleitoral, portanto, seria de se esperar que a internet fosse uma grande aliada dos eleitores para a escolha de seus representantes. Ledo engano. No Brasil, a anacrônica Lei Eleitoral trata a internet como veículo eletrônico de massa. Ou seja, iguala algo que mais parece um telefone infinito a uma emissora de televisão.

    Para piorar, em março deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) soltou uma resolução que aprofunda o equívoco, forçando os candidatos a manter apenas uma única página de promoção na internet, não importa se criada por eles ou por seus eleitores. Além de tudo, esse ambiente virtual, ao término do processo, deve ser apagado.

    Para tentar facilitar a compreensão, listei alguns absurdos da resolução do TSE:
    1. A institucionalização da recusa à história – porque ao exigir que a página criada pelo candidato seja apagada, a Justiça está impedindo que o eleitor possa checar, no futuro, o que foi dito e proposto. Depois vão reclamar que brasileiro não tem memória.

    2. A proibição dos fracos de se igualarem aos fortes – porque internet, os bons serviços são gratuitos. Ao impedir que um político possa fazer, por exemplo, uso do YouTube para armazenar seus vídeos (serviço de qualidade e gratuito), a Justiça faz uma clivagem oposta ao que se propunha (igualar as condições de disputas entre forças desiguais).

    3. A censura à voz dos eleitores – porque define o que é propaganda e o que é a defesa legítima de um ideal. Foi por causa disso, por exemplo, que o blogueiro Pedro Dória foi obrigado a excluir de seu blog o apoio público ao seu candidato a prefeito, o deputado federal Fernando Gabeira. A Justiça alegou que Dória estava fazendo propaganda indevida. Isso é como impedir alguém de colar um adesivo do candidato no seu carro (que afinal de contas é visto potencialmente por milhares de pessoas, diariamente).

    4. A censura à mobilização espontânea – porque leitores não podem criar comunidades. A vítima dessa interpretação foi a comunista Manuela D’ávila, candidata à prefeitura de Porto Alegre. A Justiça determinou – e depois voltou atrás – que ela retirasse do ar uma página em seu apoio. Ela alegou que não poderia fazer isso porque não era a “proprietária” da página. O objetivo do espaço, criado por um eleitor, era promover o diálogo dos eleitores entre si e deles com sua representante.

    Esses, infelizmente, são apenas alguns exemplos. Daria para citar vários outros. É de se estranhar, no entanto, que os partidos políticos não se levantem e tentem reverter essa situação. A única coisa que explica esse silêncio é o medo da reconfiguração do mundo na era digital, na qual cidadãos, munidos de suas vozes, começam a desconstruir os históricos mecanismos de controle.

    O que juristas e tradicionalistas esquecem é que as placas tectônicas se movem, desde que a Terra existe. Os abalos sísmicos vão continuar.