Rodrigo Savazoni

Em transe: A web imita a vida

As redes sociais, ou sites de redes sociais, são uma febre – e para muitas pessoas – a única coisa que existe na internet

O ativista Cláudio Prado, presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, narra um episódio ocorrido com ele em uma favela. Ao ministrar uma oficina sobre novas mídias, perguntou aos 30 meninos e meninas participantes quantos acessavam a internet: 22 levantaram a mão. Na sequência, perguntou quantos usavam Orkut: 26 se manifestaram. No Brasil, a impressão que passa é a de que as redes sociais são maiores que a própria rede mundial de computadores. Mais de 50% dos perfis criados no Orkut são “brasileiros”.

Mas o que é uma rede social? Segundo danah boyd, estudiosa do tema e consultora de grandes empresas do mundo, um site de rede social tem três características: 1) permitir ao usuário construir um perfil; 2) articular uma lista de amigos e conhecidos; e 3) visualizar e cruzar sua lista de amigos com os seus associados e com outras pessoas dentro do sistema. O Orkut é o grande fenômeno, mas há outros casos.

No Dogster ou no Catster, donos de bichos de estimação constroem os perfis de seus animais e trocam informações. O MyChurch reúne igrejas, paróquias e fiéis e conecta pessoas que compartilham da mesma fé – aqui acontecem até cultos.

Há também opções, por assim dizer, mais mórbidas, como o Always be Remembered e o Gone too Soon. As duas mantêm perfis de pessoas que morreram, criados por amigos e familiares.

Nos primórdios, as redes sociais foram pensadas para aproximar pessoas que não se conheciam. Logo, percebeu-se que seriam muito mais úteis se trouxessem para o mundo virtual as relações já existentes fora da web (laços consolidados). Foi assim que o Friendster, rede pioneira em sucesso, se consolidou, nos idos de 2002.

No entanto, nos últimos anos, temos visto a volta de redes mais focadas, como as que citei anteriormente ou como a LinkedIn, dedicada a currículos e ao gerenciamento de contatos profissionais.

De tudo o que vi até agora – e estou sempre rastreando novos exemplos -, a mais diferente foi a Muslima, redepara acerto de casamentos entre muçulmanos, criada pela equipe da Cupidmedia. Como não consegui entrar, não descobri se são as próprias pretendentes que participam ou os seus pais.

A web imita a vida. Quer se organizar politicamente? Namorar? Encontrar um emprego? Publicar vídeos, fotos, jogar on-line ou homenagear alguém que já se foi? Todos os caminhos levam a uma rede social.

Ouça música

Blip FM (www.blip.fm), Last FM () e AccuRadio (www.accuradio.com).

O MySpace poderia estar na outra lista, pois é um dos sites mais vistos do planeta e também funciona como uma rede social normal, completa, como Orkut ou Facebook. Mas o legal mesmo ali é fuçar na área de música, na qual estão disponíveis perfis de bandas e cantores, dos grandes sucessos aos notórios anônimos. A LastFM reinava absoluta no universo das rádios colaborativas, em que era possível criar uma programação e ser ouvido pelos seus amigos, até surgir a Blip.FM, que é uma ferramenta de brincar de DJ e recomendar canções muito divertida.

As maiores
Orkut, Facebook, Skyrock, Cyworld, Bebo, Hi5

Líderes de mercado, essas redes são muito parecidas entre si. Oferecem, quase todas, as mesmas funcionalidades. A CyWorldCyworld é mais utilizada em países asiáticos, como a Coreia, onde surgiu, e a China. O Skyrock é o terceiro site mais acessado na França (os franceses têm sempre de ter seu próprio produto). A <a href="Hi5“>Hi5 bombou em países hermanos e recentemente chegou mais forte ao Brasil. A Bebo foi durante um bom tempo uma rede quase exclusiva do Reino Unido. Facebook é, de todas elas, a mais mundial, a mais “intelectual” e a mais internacional.

Legais ou ilegais

Barack Obama criou uma rede e usou-a para mobilizar a juventude durante sua campanha. Tornou-se presidente. Resta saber se vai barrar no Congresso americano o projeto de lei que propõe impedir o acesso a sites de redes sociais em escolas e bibliotecas públicas. Tomara que ele não siga o exemplo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Durante a campanha, Kassab criou a K25, uma rede social para organizar seus correligionários. Mas, no mesmo período, assinou um decreto que impede o acesso ao Orkut e a outras redes nas escolas da maior cidade brasileira. Para o político brasileiro, rede social boa é a dele.

Crie a sua
Se nada agradou, vá ao site do Ning e crie a sua rede social, sobre o tema que quiser. Geralmente, as redes criadas no Ning são menores. Elas são um ótimo substituto para o grupo de e-mails e trazem as mesmas funcionalidades que as melhores redes sociais da web.

Ainda sobre o nerdismo na Campus Party

Carlos Carlos, video-ativista, criador do programa Bola e Arte, e repórter da Fiz TV, filmou de forma privilegiada (no primeiro vídeo que publiquei é possível identificá-lo em cima do palco) o embate entre os nerds e De Leve, um dos eventos dispensáveis da Campus Party.

O realizador entrevistou longamente De Leve e Chupa, o nerd que tentou tirar o músico do palco à força. Neste vídeo que republico abaixo ele desnuda a origem do nerdismo. As cenas são auto-explicativas, mas vale destacar o choque de classes patente no discurso de um e outro.

Aproveite e veja também o Bola e Arte

PS – Em seu blog, De Leve afirma que não foi tirado do palco, que fez o show até a última música. Fica a correção. As imagens, da forma como foram editadas, e a fala da músico que se ouve no filmete (alegando que pretendia encerrar o show para não causar mais confusão), dão a entender que o show terminou antes do previsto.

Revolução dos Nerds ou Nerdismo (uma variação do Nazismo)?

Toda tentativa radical de cerceamento à liberdade de expressão é, em resumo, um atentado à sociedade e à inteligência.

As imagens do vídeo de jovens campuseiros tentando tirar à força um músico do palco assemelham-se às de uma manifestação nazista – cenas, evidentemente toscas, que remetem aos frames produzidos por Ettore Scola sobre a passagem de Hitler por Roma, durante o governo de Mussolini.

O rapper De Leve ontem foi vítima do nerdismo, uma variação longínqua do nazismo. A movimentação da massa em fúria emerge de uma visão conservadora e moralizante. Eram nerds ou a liga das jovens católicas que queriam impedir o rapper de balançar o cu?

De Leve é um artista contemporâneo. Um remixador. Um cara pioneiro na defesa da música livre, no manejo de direitos flexíveis. Por isso, esse post é em defesa do De Leve e de todos que lutam contra os cerceadores das liberdades

Aqui o blog do De Leve.

Para encerrar 2008

Passei meses sem blogar. Hoje, postei aí embaixo uma das colunas que escrevi para a Revista do Brasil, que em 2009 deve estrear seu novo site, com o qual pretendo seguir colaborando.

Nesse hiato, não escrevi sobre muitas coisas que rolaram comigo. Coisas que precisava ter compartilhado por aqui. Para não fazer isso de novo, resolvi escrever uma mensagem genérica de fim de ano. Um balanção da vida neste período. Melhor isso que nada.

Fiquei nove meses no Estadão, trabalhando no desenvolvimento de novos projetos. Queria ter compartilhado mais o que fiz por lá. Acho que ainda dá tempo. Vou me dedicar a isso em janeiro, considerando que terei mais tempo para mim e para os meus projetos.

Em 2009, passo a coordenar o processo do Fórum da Cultura Digital que o Ministério da Cultura, em parceria com a Rede Nacional de Pesquisa, deve anunciar em breve. Também quero escrever bastante sobre esse novo esforço.

Confesso que para mim 2008 foi um ano estranho. Ano de readaptar-me a São Paulo, depois de cinco anos de Brasília. Não foi fácil. Mas foi bom. É bom estar aqui. Muito embora meu encanto pela metrópole tenha diminuído bastante.

Na lista dos melhores acontecimentos do ano, está o fato de que consegui dar início a algo que sempre quis: lecionar. Participei no primeiro semestre do projeto Repórter do Futuro, coordenado pelo Sérgio Gomes, da Oboré, e, no segundo semestre, dei aulas na Universidade de São Paulo, em parceria com meu mestre Eugênio Bucci, sobre jornalismo online. No balanço final do curso, o retorno que tivemos dos alunos foi muito positivo.

Os encontros também se fizeram presentes nesta temporada. O principal deles com uma turma sensacional de jornalistas e comunicadores que insistem em afirmar o interesse público na rede. Nos reunimos quase todas as quintas-feiras para pensar formas de agir conjuntamente, fizemos algumas coisas legais, mas muito ficou por ser feito em 2009.

Também foi um ano de reconhecimentos. O último trabalho que fizemos na Agência Brasil, o Nação Palmares, ganhou o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e o projeto Vereador Digital foi premiado na cerimônia dos melhores do ano que o Estadão promove.

A frustração ficou por conta da seleção de mestrado na Escola de Comunicação e Artes da USP. Não passei na prova teórica. Não sei o que ocorreu. Li a bibliografia básica, a específica, usei o conhecimento acumulado nas respostas, mas não consegui tirar sete. Fazia quase dez anos que eu não prestava um exame. Talvez tenha sido isso.

O bom é que escrevi o meu projeto de pesquisa e dialoguei com muita gente boa sobre ele. O principal eu já tenho: um plano. Ano que vem, tento de novo. Ao menos, e isso é fantástico, meu irmão André Deak foi aprovado e vai nos representar muito bem por lá.

Em casa, vai tudo muito bem. Francisco e Júlia crescem felizes. Lia tem feito um grande trabalho com as transmissões participativas do Roda Viva, na TV Cultura. Seguimos cultivando diariamente o amor. Os amigos estão sempre por perto. As idéias persistem em brotar.

Portanto, só posso agradecer. A quem quer que seja.

Agradecer, por exemplo, a você que insiste em vir aqui, mesmo com tanta omissão de minha parte. Aos persistentes interatores: um ótimo 2009! Espero que possamos continuar conversando, com mais freqüência (acho que é a última vez que usa uma trema na vida), no ano que terá início na quinta-feira.

Em Transe – Em nome da liberdade

Em mais uma coluna para a Revista do Brasil, tentei abordar de forma bastante didática – e da perspectiva de um consumidor comum – como é possível viver bem sem Windows e outros softwares proprietários

Outro dia um amigo me contou uma história que ouviu de um vendedor da Casas Bahia sobre um computador com preço abaixo de R$ 800, em parcelas mensais de R$ 50, a perder de vista. O vendedor, gente fina, alertou-o que aquele era um computador “com problema” e, solícito, indicou um amigo que “resolve por R$ 40”. O problema era que o computador popular vinha com uma distribuição do Linux, um software livre, e não com o Windows, sistema operacional da Microsoft. Mas será que isso é mesmo problema?

Um computador pessoal, que usamos para escrever mensagens, acessar a internet e papear no Orkut, é composto de hardware e softwares. Hardware é o “corpo” da máquina e softwares são o cérebro e o sistema nervoso, que o fazem funcionar. O software mais importante é o sistema operacional, que ativa “as engrenagens” da máquina e permite entender os comandos que o usuário quer que a máquina execute. Dentro do sistema operacional são instalados os demais softwares, que vão satisfazer as necessidades de seu dono, como o software para escrever textos, para editar fotos, vídeos ou áudios, para enviar e receber e-mails, navegar na internet.

O sistema operacional líder de mercado é o Windows. Mas ele não é a única opção. A Apple, por exemplo, faz hardwares – como os charmosos computadores Macintosh, o iPhone, o iPod – e também produz seu próprio sistema operacional, o Mac OS, preferido de quem trabalha com multimídia e design gráfico.

Para os PCs convencionais, existe um grande número de distribuições de sistemas operacionais baseadas em Linux. E esses softwares têm sido cada vez mais bem-aceitos. Muitos são mais fáceis de instalar que o Windows e não perdem nada em termos de oferta de serviços. Além do mais, são produtos livres, gratuitos e também não se paga nada quando se adquire uma versão mais atualizada.

O melhor de todos é o Ubuntu, cuja última versão é a 8.10 (para fazer o download gratuito basta ir ao site www.ubuntu.com). Desenvolvido por uma comunidade de programadores, ele se destaca porque foi pensado para o uso de gente que não sabe escrever códigos. A palavra Ubuntu, de origem africana, significa “Eu sou o que eu sou porque você é o que é”. Algo que procura estimular os laços entre os seres humanos. Sua instalação demora em torno de 25 minutos.

Outra distribuição bacana é o OpenSuse, mantido pela Novell, empresa com quase 30 anos de existência que foi redefinindo sua área de atuação para se concentrar apenas em produtos livres. O Suse dá muita ênfase à parte gráfica, é bonito e oferece recursos para o usuário deixá-lo com a cara que quiser.
No Brasil, a comunidade de desenvolvedores produziu o Kurumin. Talvez você já tenha até visto a logomarca com o indiozinho em bancas de jornais, porque sempre há uma versão desse sistema sendo vendida em revistas do ramo. É uma solução nacional, muito bacana.

Quem quiser ter mais opções, pode experimentar o Debian, o Red Hat ou o Mandriva. A lista não para. Uma busca pela internet pode levar a muitas opções.

O computador que meu amigo queria comprar na Casas Bahia vinha com Linux, o que, evidentemente, não é um problema. Aliás, é preferível usar um software livre a uma versão pirata de Windows, que o amigo dele iria instalar por R$ 40 (no varejo, a versão mais simples do Windows Vista sai por volta de R$ 300 e a distribuição completa chega a R$ 800).

As principais empresas do mercado brasileiro, como Dell e Positivo, não divulgam a composição do preço de um computador. Uma parte é hardware e imposto. Outra é software. É difícil, portanto, descobrir na ponta do lápis quanto se pode poupar de cara ao escolher um software livre. A avaliação deve ser feita caso a caso. A dica é investigar bem antes de escolher o PC e pensar mais ainda antes de investir qualquer quantia em licenças de software proprietário (inclusive porque elas são renováveis todos os anos).

Portanto, se você já é dono de um dos 12,5 milhões de computadores que serão vendidos no Brasil neste ano – ou tem em seu computador uma versão pirata de software proprietário, ou uma versão original em vias de inspirar –, digo por experiência própria: é possível viver bem sem produtos da Microsoft. Logo, você vai descobrir que é muito bom ser livre.

O que é um software livre?

Todo software é escrito em códigos de programação. Livre é aquele que permite a qualquer um ver esse código, o que significa ter a possibilidade de entender como funciona o programa, podendo modificá-lo de acordo com as necessidades do usuário. Como escreve André Deak, “é como se um programa de computador fosse o bolo e o código dele, a sua receita. No software livre, as pessoas têm acesso à receita, o que possibilita que alterem o sabor do bolo como preferir”. No modelo proprietário, as pessoas não têm acesso à receita. A opção pelo software livre permite o desenvolvimento tecnológico e a criação de comunidades voltadas para melhorar os programas em benefício de todos os usuários.

Computação em nuvem

A discussão sobre sistemas operacionais tende a se tornar obsoleta quando falamos de computação em nuvem, tradução do termo em inglês Cloud Computing. Basicamente, estamos falando de colocar tudo o que temos hoje dentro das nossas máquinas em algum lugar da rede, acessível de qualquer lugar, a qualquer hora (pelo computador do trabalho, da lan house, do celular), por você mesmo ou por outras pessoas às quais você dê permissão. É como já ocorre com a maioria das contas de e-mail. Suas mensagens estão armazenadas em um servidor – que você não sabe onde fica – e podem ser acessadas de qualquer máquina, a qualquer hora. A tendência é justamente que isso ocorra com toda a computação. O futuro passa por aí.

A cara-de-pau da Justiça Eleitoral

Matéria publicada hoje no G1, portal de notícias da Globo, é uma das maiores demonstrações de cara-de-pau da recente história política brasileira.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, depois da lambança cometida pelo órgão que ele presidente diz agora “que os candidatos podem usar a internet como uma ferramenta de campanha”. Segundo ele, o tribunal foi mal compreendido e por isso o uso da internet foi reduzido durante a campanha.

“Nós facilitamos o uso da internet quando nos propusemos a atuar mediante o abuso. Os partidos, os candidatos e os críticos não compreenderam e houve uma retração do uso, que é até indevida. É possível sim usar a internet com mais desembaraço. Quem sabe agora, no segundo turno, nós tenhamos que rever a matéria em questão de ordem e aclarar o significado da nossa decisão”, disse o magistrado em entrevista no dia das eleições.

Recupero aqui alguns textos que escrevi nesses meses de processo eleitoral:

  • Obama Lá e Nós Aqui
  • Entrevista com Sérgio Amadeu
  • Mais sobre a Justiça Eleitoral
  • Entrevista com um censurado
  • Uma resposta coletiva
  • A visão de André Deak
  • A visão de Antonio Biondi
  • A resposta do Juiz
  • Mais sobre a Justiça Eleitoral

    Texto publicado originalmente pela Revista do Brasil

    A política sofreu abalos sísmicos com a criação da internet. Se, no passado, manter gente mobilizada, em contato permanente, era algo que exigia muito esforço dos militantes, hoje a realidade é completamente distinta. Grupos de e-mails e fóruns virtuais dão cabo do problema. Redes sociais, então, nem se fale. Quantas não são as comunidades no Orkut, no Facebook ou no MySpace dedicadas a causas políticas as mais variadas?

    Nos últimos anos, tornou-se hábito de vereadores, deputados e até mesmo prefeitos e governadores usarem esses mecanismos para realizar uma comunicação mais interativa. O objetivo desses homens públicos – ao menos dos sérios e inimputáveis – é construir novas pontes com o que a população almeja e assim realizar com mais qualidade a função para a qual foram eleitos, ampliando o diálogo entre representantes e representados.

    Num período eleitoral, portanto, seria de se esperar que a internet fosse uma grande aliada dos eleitores para a escolha de seus representantes. Ledo engano. No Brasil, a anacrônica Lei Eleitoral trata a internet como veículo eletrônico de massa. Ou seja, iguala algo que mais parece um telefone infinito a uma emissora de televisão.

    Para piorar, em março deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) soltou uma resolução que aprofunda o equívoco, forçando os candidatos a manter apenas uma única página de promoção na internet, não importa se criada por eles ou por seus eleitores. Além de tudo, esse ambiente virtual, ao término do processo, deve ser apagado.

    Para tentar facilitar a compreensão, listei alguns absurdos da resolução do TSE:
    1. A institucionalização da recusa à história – porque ao exigir que a página criada pelo candidato seja apagada, a Justiça está impedindo que o eleitor possa checar, no futuro, o que foi dito e proposto. Depois vão reclamar que brasileiro não tem memória.

    2. A proibição dos fracos de se igualarem aos fortes – porque internet, os bons serviços são gratuitos. Ao impedir que um político possa fazer, por exemplo, uso do YouTube para armazenar seus vídeos (serviço de qualidade e gratuito), a Justiça faz uma clivagem oposta ao que se propunha (igualar as condições de disputas entre forças desiguais).

    3. A censura à voz dos eleitores – porque define o que é propaganda e o que é a defesa legítima de um ideal. Foi por causa disso, por exemplo, que o blogueiro Pedro Dória foi obrigado a excluir de seu blog o apoio público ao seu candidato a prefeito, o deputado federal Fernando Gabeira. A Justiça alegou que Dória estava fazendo propaganda indevida. Isso é como impedir alguém de colar um adesivo do candidato no seu carro (que afinal de contas é visto potencialmente por milhares de pessoas, diariamente).

    4. A censura à mobilização espontânea – porque leitores não podem criar comunidades. A vítima dessa interpretação foi a comunista Manuela D’ávila, candidata à prefeitura de Porto Alegre. A Justiça determinou – e depois voltou atrás – que ela retirasse do ar uma página em seu apoio. Ela alegou que não poderia fazer isso porque não era a “proprietária” da página. O objetivo do espaço, criado por um eleitor, era promover o diálogo dos eleitores entre si e deles com sua representante.

    Esses, infelizmente, são apenas alguns exemplos. Daria para citar vários outros. É de se estranhar, no entanto, que os partidos políticos não se levantem e tentem reverter essa situação. A única coisa que explica esse silêncio é o medo da reconfiguração do mundo na era digital, na qual cidadãos, munidos de suas vozes, começam a desconstruir os históricos mecanismos de controle.

    O que juristas e tradicionalistas esquecem é que as placas tectônicas se movem, desde que a Terra existe. Os abalos sísmicos vão continuar.

    “Relógio da Justiça Eleitoral está atrasado”

    O advogado Álvaro Dantas foi proibido pela Justiça Eleitoral de falar sobre eleições em seu blog. Ele é de Maturéia, cidade de 5 mil habitantes no sertão paraibano e lá coordena a campanha a prefeito de seu irmão, Daniel Dantas (PMDB/PSB).

    Por que o Sr. foi impedido de falar sobre eleições no seu blog?
    Sou coordenador da campanha da coligação PMDB/PSB no meu Município, e a coligação contrária, PT/DEM/PSDB representou à Justiça Eleitoral alegando que o meu blog “além de promover indevidamente o candidato, causa desequilíbrio ao certame em disputa”.

    O que o Sr. acha da resolução do TSE sobre eleições e internet?
    A resolução nº 22.618/2008 do TSE é um desastre completo. É uma castração do direito que cada cidadão tem de expressar suas idéias. Ela foi feita por venerandos senhores que usam um computador como se fosse apenas uma máquina de escrever mais moderna. Eles não sabem o que é, como funciona e nem pra que serve a internet. Na sentença que me censurou, o blog foi equiparado a um provedor e, o que é pior, a juíza entendeu que todo usuário da internet obrigatoriamente tem que passar pela página do provedor para acessar quaisquer outras páginas.

    A lei eleitoral visa a baratear a disputa, de maneira a dar oportunidade para todos, com paridade de armas. Ao proibir o uso da internet, meio reconhecidamente mais barato de se fazer campanha – por vezes, até de graça – dá um tiro no pé.

    O que o Sr. acha que seria um modelo de regulação legítimo para a internet?
    Defendo a liberdade com responsabilidade. O código eleitoral já prevê os limites da propaganda e a punição a seus excessos. Nada mais.

    Não podemos esquecer de outra limitação absurda, que é a proibição de doações pela internet, geralmente individual e desinteressada, remetendo as campanhas às doações tradicionais e “amarradas”. Decididamente o relógio da Justiça Eleitoral está atrasado. Está fora do tempo.

    11 de setembro

    Faz sete anos vi você cair diante dos meus olhos. Eu não sabia que tudo seria diferente desde então, que um novo ciclo de minha vida teria início.
    Seu corpo parecia leve, a flutuar ao sabor do vento vitimado pela gravidade. Não parecia, de onde eu via, que aquele vôo frágil poderia mudar o tempo.
    De uma certa mirada, era apenas um corpo caindo rapidamente, em sua inexorável trajetória rumo ao chão. Eu estava tão longe, mas me sentia próximo.

    De toda forma, a distância me impediu de lhe dizer adeus. Eu já devia ter superado, pois faz sete anos que vi você cair.
    Não consigo.
    Porque não foi só o seu corpo que caiu. O meu também se esbarrochou, partindo-se.
    Porque, não sei se você sabe, seu corpo leve germinou novos tiranos e causou uma guerra.
    Apenas o seu corpo, porque jamais soube o seu nome. Jamais revelaram seu nome. Apenas exibiram o seu corpo, em queda livre.

    Seu corpo era também, contraditoriamente, a face de um mundo que deixou de existir exatamente quando você chegou ao chão e se misturou aos destroços, ao entulho, ao concreto, ao vidro, ao aço, ao sangue, aos outros pedaços de corpos, aos restos daquele prédio e daquele avião.

    Aquele avião que trombou com o prédio, criou o fogo, destruiu o prédio e que fez, você, corpo, pular.

    corpo

    O candidato da moda

    O processo de construção de um perfil da classe política de São Paulo prossegue no Estadão.com. Já chegamos a 730 vídeos gravados no Vereador Digital e essas informações estão servindo de base para matérias dos jornais do Grupo Estado, como a que foi publicada hoje em O Estado de S. Paulo (apenas para assinantes), sobre os cacarecos que concorrem a uma das 55 vagas na Câmara.

    No portal, também publicamos hoje um infográfico animado chamado Retrato de um aspirante a vereador, com o cruzamento de todas as informações que reunimos até agora. A idéia da arte e da navegação foi do Daniel Jelin, editor de especiais do portal. Eu coordenei o trabalho de apuração e geração de informações em parceria com o programador Leandro Takeshi.

    O candidato da moda de São Paulo é o José. Ele é homem, casado, corinthiano, tem 52 anos. Concluiu o ensino superior, formando-se advogado. Não é da Capital, mas nasceu no Estado de São Paulo. É tucano, mas tem no Lula seu político predileto. Ele é fã do pai e acha que o primeiro problema da metrópole é a saúde (se somarmos trânsito e transporte esse passa a ser o principal problema para os candidatos a vereador).

    Produzimos, com base nessas informações, um avatar. O usuário navega pelos elementos que compõem a cena para acessar as informações, mas pode também ir passando gráfico por gráfico. Para esse levantamento, usamos as informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e também as entrevistas exclusivas que estão sendo feitas com cada um dos candidatos.

    candidato