Rodrigo Savazoni

Category: literatura

Com sabor de Alvim

(Brasília, 2006)
Tudo se revela
ao cair do vestido verde
o corpo negro
o olho negro
o vôo negro
o corpo branco
o punho branco
No quarto branco,
Apenas uma vela

De onde vieram esses poemas?

Reconheço-me nessas palavras que comecei a publicar por aqui. Vivo nelas. Sempre tive a sensação de que nunca conseguiria dar por finalizado um poema. Então resolvi jogá-los na internet.
Cheguei ao meu limite. Posso seguir escrevendo. Ou não.
Essas palavras me perseguem. Achei que estavam mortas. Que eu tinha conseguido matá-las. Mas não consegui. E aqui estão [...]

Origem II

(Brasília, 06 de novembro de 2006)
Para Paco, meu filho
A água escorre fria pela parede turva. É dia,
e o céu branco espia pela fresta da cortina.
Um rasgo e a cabeça e a boca e o braço,
o sangue escorre espesso pela minha vagina.
A flor negra expele o vivo corpo:
o viço: o novo!
A água escorre fria pela parede [...]

Origem I

(Brasília, 2006)
com sampler de Carlos Drummond de Andrade
Nas trompas do mundo sem continentes,
meu óvulo foi gerado.
No esperma quente das lutas urgentes,
meu corpo foi forjado.
Nasci macho, pelado,
Sem armas, nem garras,
Puro como uma besta,
Desembestado.

De batucada

(Rio de Janeiro, 2005)
“Mas eu, nascido num tempo de sussurros,
tenho a voz contundente
e por mais que me esforce
não sirvo para cantar no coro.
Sei apenas tocar meu atabaque”
(Eduardo Alves da Costa)
Sereia brasileira, fio?
Tem a cara preta
E a voz da Clementina.
Sussurra em si sustenido
Aquela cantiga de menino
“Boi, boi, boi…”
O [...]

Sino de Santarém

(Brasília, 2006)
“O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês.
“Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”
(José Saramago, em texto para o Fórum Social Mundial)

I – [...]

Estudo 1

…O peso da bota negra em meu rosto e a boca arremessa um cuspe vermelho e espesso, parecido a uma aguardente adocicada que meu avô preparava e armazenava na fazenda. Já não sinto as pernas, mas esses chutes seqüenciais nos rins e no fígado doem uma barbaridade. Os gritos: “Assassino de merda! Terrorista!” Eu não [...]

O professor da Usina de Arte do Acre

Estou em Rio Branco, capital do Acre. No domingo, fui assistir, com Maurice Capovilla, cineasta e professor, coordenador do Curso de Cinema da Usina de Arte, ao jogo entre o Rio Branco e o ABC de Natal. Um empate muxoxo em 0 x 0 e a vitória do Bahia no outro jogo da rodada resultaram [...]

São Paulo – poema permanentemente reescrito

São Paulo.
O céu submerso em prédios.
O céu poligonal.
Os restos.
A pobreza se dissipa em São Paulo. Tão burguesa!
E tenho a sensação de que estou mergulhado numa cidade infinita.
São Paulo e seus segredos,
…Seu vestido de néon
…Seu tailleur parisiense
…Seu modelito de Faoze Haten
…Seu vestido de chita
…Seu pé descalço;
…Inflamado;
…Apodrecido;
Avenida Paulista.
Limiar da decadência.
De um lado:
Minhas putas,
botecos nordestinos,
carcamanos,
arcaicas cantinas,
teatros em reforma,
sempre [...]

A música na obra de Jorge Amado

Escrevi esse texto para o Estadão há alguns anos. Foi publicado por ocasião da morte de Jorge Amado. Meses atrás, recebi um e-mail de uma estudante de literatura que encontrou a reportagem ao acaso e queria utilizá-la em um trabalho de faculdade. Agora, semana passada, uma amiga me contou que o texto foi citado como [...]