Em Transe – Em nome da liberdade
by Rodrigo Savazoni
Em mais uma coluna para a Revista do Brasil, tentei abordar de forma bastante didática – e da perspectiva de um consumidor comum – como é possível viver bem sem Windows e outros softwares proprietários
Outro dia um amigo me contou uma história que ouviu de um vendedor da Casas Bahia sobre um computador com preço abaixo de R$ 800, em parcelas mensais de R$ 50, a perder de vista. O vendedor, gente fina, alertou-o que aquele era um computador “com problema” e, solícito, indicou um amigo que “resolve por R$ 40”. O problema era que o computador popular vinha com uma distribuição do Linux, um software livre, e não com o Windows, sistema operacional da Microsoft. Mas será que isso é mesmo problema?
Um computador pessoal, que usamos para escrever mensagens, acessar a internet e papear no Orkut, é composto de hardware e softwares. Hardware é o “corpo” da máquina e softwares são o cérebro e o sistema nervoso, que o fazem funcionar. O software mais importante é o sistema operacional, que ativa “as engrenagens” da máquina e permite entender os comandos que o usuário quer que a máquina execute. Dentro do sistema operacional são instalados os demais softwares, que vão satisfazer as necessidades de seu dono, como o software para escrever textos, para editar fotos, vídeos ou áudios, para enviar e receber e-mails, navegar na internet.
O sistema operacional líder de mercado é o Windows. Mas ele não é a única opção. A Apple, por exemplo, faz hardwares – como os charmosos computadores Macintosh, o iPhone, o iPod – e também produz seu próprio sistema operacional, o Mac OS, preferido de quem trabalha com multimídia e design gráfico.
Para os PCs convencionais, existe um grande número de distribuições de sistemas operacionais baseadas em Linux. E esses softwares têm sido cada vez mais bem-aceitos. Muitos são mais fáceis de instalar que o Windows e não perdem nada em termos de oferta de serviços. Além do mais, são produtos livres, gratuitos e também não se paga nada quando se adquire uma versão mais atualizada.
O melhor de todos é o Ubuntu, cuja última versão é a 8.10 (para fazer o download gratuito basta ir ao site www.ubuntu.com). Desenvolvido por uma comunidade de programadores, ele se destaca porque foi pensado para o uso de gente que não sabe escrever códigos. A palavra Ubuntu, de origem africana, significa “Eu sou o que eu sou porque você é o que é”. Algo que procura estimular os laços entre os seres humanos. Sua instalação demora em torno de 25 minutos.
Outra distribuição bacana é o OpenSuse, mantido pela Novell, empresa com quase 30 anos de existência que foi redefinindo sua área de atuação para se concentrar apenas em produtos livres. O Suse dá muita ênfase à parte gráfica, é bonito e oferece recursos para o usuário deixá-lo com a cara que quiser.
No Brasil, a comunidade de desenvolvedores produziu o Kurumin. Talvez você já tenha até visto a logomarca com o indiozinho em bancas de jornais, porque sempre há uma versão desse sistema sendo vendida em revistas do ramo. É uma solução nacional, muito bacana.
Quem quiser ter mais opções, pode experimentar o Debian, o Red Hat ou o Mandriva. A lista não para. Uma busca pela internet pode levar a muitas opções.
O computador que meu amigo queria comprar na Casas Bahia vinha com Linux, o que, evidentemente, não é um problema. Aliás, é preferível usar um software livre a uma versão pirata de Windows, que o amigo dele iria instalar por R$ 40 (no varejo, a versão mais simples do Windows Vista sai por volta de R$ 300 e a distribuição completa chega a R$ 800).
As principais empresas do mercado brasileiro, como Dell e Positivo, não divulgam a composição do preço de um computador. Uma parte é hardware e imposto. Outra é software. É difícil, portanto, descobrir na ponta do lápis quanto se pode poupar de cara ao escolher um software livre. A avaliação deve ser feita caso a caso. A dica é investigar bem antes de escolher o PC e pensar mais ainda antes de investir qualquer quantia em licenças de software proprietário (inclusive porque elas são renováveis todos os anos).
Portanto, se você já é dono de um dos 12,5 milhões de computadores que serão vendidos no Brasil neste ano – ou tem em seu computador uma versão pirata de software proprietário, ou uma versão original em vias de inspirar –, digo por experiência própria: é possível viver bem sem produtos da Microsoft. Logo, você vai descobrir que é muito bom ser livre.
O que é um software livre?
Todo software é escrito em códigos de programação. Livre é aquele que permite a qualquer um ver esse código, o que significa ter a possibilidade de entender como funciona o programa, podendo modificá-lo de acordo com as necessidades do usuário. Como escreve André Deak, “é como se um programa de computador fosse o bolo e o código dele, a sua receita. No software livre, as pessoas têm acesso à receita, o que possibilita que alterem o sabor do bolo como preferir”. No modelo proprietário, as pessoas não têm acesso à receita. A opção pelo software livre permite o desenvolvimento tecnológico e a criação de comunidades voltadas para melhorar os programas em benefício de todos os usuários.
Computação em nuvem
A discussão sobre sistemas operacionais tende a se tornar obsoleta quando falamos de computação em nuvem, tradução do termo em inglês Cloud Computing. Basicamente, estamos falando de colocar tudo o que temos hoje dentro das nossas máquinas em algum lugar da rede, acessível de qualquer lugar, a qualquer hora (pelo computador do trabalho, da lan house, do celular), por você mesmo ou por outras pessoas às quais você dê permissão. É como já ocorre com a maioria das contas de e-mail. Suas mensagens estão armazenadas em um servidor – que você não sabe onde fica – e podem ser acessadas de qualquer máquina, a qualquer hora. A tendência é justamente que isso ocorra com toda a computação. O futuro passa por aí.
