11 de setembro

by Rodrigo Savazoni

Faz sete anos vi você cair diante dos meus olhos. Eu não sabia que tudo seria diferente desde então, que um novo ciclo de minha vida teria início.
Seu corpo parecia leve, a flutuar ao sabor do vento vitimado pela gravidade. Não parecia, de onde eu via, que aquele vôo frágil poderia mudar o tempo.
De uma certa mirada, era apenas um corpo caindo rapidamente, em sua inexorável trajetória rumo ao chão. Eu estava tão longe, mas me sentia próximo.

De toda forma, a distância me impediu de lhe dizer adeus. Eu já devia ter superado, pois faz sete anos que vi você cair.
Não consigo.
Porque não foi só o seu corpo que caiu. O meu também se esbarrochou, partindo-se.
Porque, não sei se você sabe, seu corpo leve germinou novos tiranos e causou uma guerra.
Apenas o seu corpo, porque jamais soube o seu nome. Jamais revelaram seu nome. Apenas exibiram o seu corpo, em queda livre.

Seu corpo era também, contraditoriamente, a face de um mundo que deixou de existir exatamente quando você chegou ao chão e se misturou aos destroços, ao entulho, ao concreto, ao vidro, ao aço, ao sangue, aos outros pedaços de corpos, aos restos daquele prédio e daquele avião.

Aquele avião que trombou com o prédio, criou o fogo, destruiu o prédio e que fez, você, corpo, pular.

corpo