CAPÍTULO 3: Uma crônica multimídia
by Rodrigo Savazoni
Um dos primeiros trabalhos que a Garapa oferece em seu site é um áudio slide-show conciso sobre uma história triste do cotidiano metropolitano. Um caminhão derrubou a parede de uma casa e matou uma senhora. Seria, no máximo, uma nota, na Folha ou no Estadão. Em um jornal popular, renderia uma matéria um pouco maior.
A depender de quem fosse a mulher, poderia gerar suítes. Como a senhora da ocasião era negra e pobre, provavelmente o assunto seria esquecido no outro dia. Só restaria a ausência para alguns – sua família, a vizinha, os colegas de trabalho.
Paulo Fehlauer, com sua sensibilidade e sua insensibilidade (mistura que faz o repórter), chega ao local do fato e conversa com quem foi atingido pela tragédia. Munido de sua máquina fotográfica e de um gravador digital, recolhe o insumo necessário. Edita tudo isso em algumas horas e, ao fim do dia, o que seria uma nota insossa sobre um crime relativamente banal se transforma em uma crônica multimídia. Algo que, se publicado fosse, contrariaria Rubem Braga e levaria vida ao jornal digital.
Pedi ao Fehlauer para fazer o making off desse trabalho.
Fiz o slideshow justamente para mostrar como isso pode ser um processo simples. Recebi uma pauta aparentemente simples, apesar de trágica: um caminhão havia invadido uma casa na periferia e vitimado uma senhora de uns 60 anos. É o tipo de notícia que chega a dar no máximo uma nota no dia seguinte, mas que gera um burburinho momentâneo quando publicado na web. Vi algumas notas em sites noticiosos com vídeos feitos a partir de helicóptero, outras com fotos do local.
Cheguei ao local do acidente e o caminhão ainda estava lá, a CET se preparando para guinchá-lo, o dono da casa, e marido da senhora morta, conversando com policiais. Fui como fotógrafo, mas percebi que o jornal sequer havia mandado repórter. Fiquei tocado pelo que aconteceu, e isso me fez perceber que aquela história deveria render mais do que uma simples nota. Peguei um mini gravador de áudio que carrego comigo e o deixei gravando o barulho ambiente por um tempo, com todo o processo de remoção do caminhão, tijolos caindo, vidros quebrando, curiosos falando sem parar. Depois resolvi conversar um pouco com o dono da casa, que parecia sereno apesar de ter perdido a esposa. Conversei também com alguns vizinhos e pensei em imagens que pudessem ir além do mero registro do acidente, mas que pudessem contar uma história. Ou seja, fui repórter.
Passei cerca de duas horas no local, depois segui para outras pautas. Acabei editando o material só à noite, já em casa. Fiz uma seleção inicial de imagens, depois editei uma faixa de áudio com aproximadamente 1min30s de duração, juntando o som ambiente com os depoimentos. Joguei tudo no software Soundslides e, em mais duas horas de trabalho, tinha o slideshow pronto para ser publicado.
Chamei o post no blog da Garapa de “Multimídia no Jornalismo Diário” porque queria reforçar essa possibilidade. Descontando os intervalos, da captação à finalização foram no máximo 5 horas de trabalho, que trouxeram um olhar completamente diferente sobre uma história que passaria batida. Meu objetivo era mostrar ao público um pouco do que eu próprio senti naquele momento. Infelizmente, não temos essa liberdade na dita grande mídia. Somos mais robôs registradores do que seres humanos. E é contra essa robotização que queremos lutar com a Garapa.
Queria aproveitar que estou falando sobre o Fehlauer para indicar este documentário que está no seu blog.

