CAPÍTULO 2: O que dizem os garapeiros

by Rodrigo Savazoni

Entrevistei Paulo Fehlauer, Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes, os fundadores da Garapa, por e-mail. O resultado é esse aí que vocês conferem abaixo.

Quem enviou as respostas foi o Fehlauer, camarada que tem trabalhado comigo na construção do Publico. É uma turma de talentosos jornalistas, de caras que trabalham tão bem, tão bem, que às vezes, o que eles fazem, até parece arte (acho que é arte sim).

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Quando a Garapa foi fundada, por quem e qual a idéia de vocês com isso?

Acho que ainda estamos nesse processo, descobrindo uma linguagem. A Garapa foi meio que gerada, espremida mesmo, quase como uma vontade coletiva dos 3 sócios, que colidiu em um momento muito oportuno. Voltei de Nova York com muita vontade de explorar esses novos caminhos do jornalismo, tendo participado um pouco desse debate por lá. Chego ao Brasil e encontro o Leo, que trouxe o Rodrigo de Londres pensando em fazer algo na mesma linha. Somos 3 “garapeiros”: Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, três jornalistas-fotógrafos indignados com a mesmice do nosso jornalismo.

Falem um pouco das influências. Dá para perceber que Brian Storm e sua MediaStorm são referências de vocês. Quem mais?

A MediaStorm é definitivamente uma inspiração. Pelo que sabemos, é a única empresa dedicada à produção desse tipo de conteúdo. É incrível que eles consigam fornecer ao mercado editorial peças com mais de 10 minutos de duração, um tempo relativamente longo para a internet. As agências VII Photo e Magnum têm trabalhos belíssimos, mais ligados à tradição fotográfica. Acho que também somos influenciados por uma tradição de documentaristas, fotógrafos e cineastas, e, por que não, romancistas, cronistas. No fim das contas, queremos contar histórias, e estamos explorando os meios que nos parecem mais interessantes.

Vocês partem da fotografia para o exercício da narrativa hipermidiática. Esse tem sido um caminho natural nos Estados Unidos. O último Pulitzer premiou uma fotógrafa que fez um trabalho, fantástico, audiovisual. É esse o caminho para os fotografos agora?

Não sei se para os fotógrafos de forma geral, tem muita gente que não quer saber disso, mas achamos que há um espaço a ser ocupado. Nos EUA, há até uma certa pressão sobre os fotojornalistas. Muitos são obrigados pelos jornais a levar câmeras de vídeo e gravadores de áudio para a rua. Por outro lado, ainda tem muita gente que não abre mão do filme. Mas não há dúvida que a internet abriu muitos caminhos, e há uma geração de fotógrafos e jornalistas que quer explorá-los. Há uma linguagem a ser desenvolvida, e um público a ser formado – público esse, é bom lembrar, que se habituou rapidamente aos vídeos curtissimos do YouTube e congêneres.

Com a internet, os formatos se diluíram muito, fica difícil delimitar os conteúdos. E, se os campos se cruzam, é natural que a fotografia se ligue a outros formatos. As ferramentas são cada vez mais acessíveis, e o fluxo de informação cada vez maior. Acho que a idéia é achar formas de expressão que se encaixem nesse fluxo, e acho que essa é a nossa busca.

Qual a sua avaliação do trabalho realizado pelos veículos jornalísticos online? Você acha que os grandes abrirão espaço para esse tipo de trabalho?

O mercado brasileiro é bem diferente do americano, bem menor, bem mais concentrado, tradicional, familiar, é até injusto comparar. Pelos contatos que tivemos recentemente, percebemos que essa abertura deve começar pelos veículos essencialmente online, como os grandes portais. A estrutura dos grandes conglomerados da mídia impressa ainda é arcaica, conservadora, pouco atenta às mudanças. É impensável, por exemplo, uma integração de redações como as que têm passado os grandes jornais dos Estados Unidos. Aqui, impresso é impresso, online é primo pobre, e a lógica nesse caso costuma ser a do máximo lucro com mínimo investimento. Mas em algum momento essa abertura vai acontecer. Grande parte do público desses veículos têm acesso a banda larga, e há um potencial de geração de receita com publicidade ainda pouco explorado. Quando o primeiro grande veiculo investir, a concorrência vai ter que correr atrás. Acreditamos que, em um momento não muito distante, a produção online vai se dissociar bastante do conteúdo impresso.