Globo Livre? Segue o debate
by Rodrigo Savazoni
Minha provocação anterior já rendeu um debate legal, com contribuições de muita qualidade. Como ainda tem gente que vai a blog e não lê comentários – reproduz o esquema de ler um velho jornal de papel – produzi um post articulando as posições dos meus parceiros de produção de conhecimento.
A Tainã, do blog Tai Nalon, conta que já trabalhou para a Globo.com e acompanhou o início da abertura da empresa para o uso de tecnologias livres. Ela inclusive vincula o sucesso da Globo na internet, depois de anos amargando uma posição aquém da sua força editorial, ao uso dessas tecnologias.
Trabalhei numa extensão da Globo.com no ano passado como produtora de conteúdo para o portal Globoradio.com. Naquela época, a orientação executiva era de que usássemos blogs dos serviços oferecidos pelo portal Globo.com, o Globolog. Algumas semanas depois de montarmos os blogs das rádios, tivemos a notícia de que o G1 tinha peitado a orientação da diretoria e colocou todos os seus blogs baseados em Wordpress. O motivo? Além de economicamente mais viáveis, os softwares de publicação do grupo Globo.com, como blogs, fotologs e publicadores php tinham sido limados com a mudança de gestão da empresa por serem ultrapassados, engessados e mal desenvolvidos. Agora, todo o ramo de desenvolvimento de softwares da Globo.com está focada em migração da estrutura vigente para uma open source em que eles podem fazer as modificações necessárias de modo a personalizá-las apenas para eles.
O Welington Andrade, do Wakky, também relata uma experiência recente dele. Ele participa de uma rede de desenvolvimento, na qual também figuram programadores da Globo. Ele relata que as melhorias produzidas pelo Globo Online para a rede social de leitores GloboOnliners, já foram devolvidas à comunidade.
Estou estudando uma pacote para criação de redes, desenvolvido por um pessoal da Coppe-Rio. Alguns dos participantes do fórum são pessoas da Globo que usaram esse pacote na criação do Globoonliners e hoje compartilham as melhorias.
A designer Yasodara Córdova, com quem tive o prazer de trabalhar na Agência Brasil, avalia esse tipo de movimento como positivo. Ou seja, isso significaria uma vitória do software livre, abrindo cabeças da velha mídia.
Se a Globo se apropria, modifica, aprimora e continua dentro da proposta do SL é porque a empresa tomou essa decisão, simplesmente. Penso que é uma oportunidade para os programadores da área ganharem mais e serem mais valorizados, quem sabe.
O André Deak compartilha do olhar positivo. Para ele, o software livre venceu a guerra contra o software proprietário. Isso é fantástico, porque significa que o conhecimento humano será partilhado. Imaginem o que seria de nós se Galileu tivesse patenteado seu estudos, criado a Galileu.inc e impedido o uso de suas descobertas por outras pessoas.
Eu fiquei convencido, depois desse FISL, que o software livre venceu. É questão de tempo. Não pelos motivos ideológicos (a Globo.com diz não ter previsão de quando vai poder retornar suas melhorias para a comunidade, aliás), mas em alguns anos vai estar tudo dominado. Acho que é um passo, dentro de uma batalha muito maior, e na verdade pode ser que seja só um pequeno passo.
Deak lembra o trabalho de mestrado do Rafael Evangelista. Em sua tese, Evangelista mostra que existem duas correntes muito fortes dentro da comunidade software livre. A ideológica, inspirada em Richard Stallman, criador da Free Software Foundation, e outra, mais pragmática, que segue as teorias de Eric Raymond, autor de A Catedral e o Bazar e defensor do termo Open Source. São grupos que trabalham com códigos-fonte abertos, regidos por éticas distintas.
No post que originou esse blá, blá, blá todo, Deak aponta para o fato de que a Globo está “estudando” como devolver suas contribuições à comunidade. Ou seja, ainda não é prática da empresa compartilhar o que elaborou a partir do compartilhamento. Talvez por medo de que outras empresas – que não aderiram à partilha do conhecimento – “roubem” suas inovações.
A professora-doutora e pesquisadora Caru Schwingel também acrescenta informações ao debate ao revelar que o processo de abertura das corporações às tecnologias livres começou com o Terra. Esse tema foi seu objeto de estudo em Cibercultura, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Caru pertence ao Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online, o mais sério e importante do Brasil.
Interessante esse direcionamento. Há alguns anos, eles estariam fazendo uma mesa mostrando o resultado de engenharia reversa nos sistemas web usados pela Globo. Agora, talvez tenham optado pela ênfase no aspecto de que o Software Livre, além de economicamente viável, é um dos mais robustos e confiáveis, quando o assunto é protocolos e servidores para redes telemáticas interativas. Outro sentido interessante que vejo, é que os técnicos vinculados aos Projetos Softwares Livres no Brasil têm levado suas ideologias e competências a vários projetos governamentais e empresariais. Antes de mais nada, eles garantem que uma licença GPL continue GPL, e seu trabalho parte daí. Quem primeiro fez uma migração total para SL, de forma discreta, foi o terra.
Quem mais se atreve? O que significa para você o tux platinado? Uma brincadeira de mal gosto? Uma bem-vinda vitória dos hackers? É ou não é um tema bem divertido para a gente pensar o futuro da comunicação brasileira?


Comments
Opa, saindo do ghosting…
Olhando muito pragmaticanente a coisa, quando se é uma empresa de internet, onde hypes e necessidades mudam muito rapidamente, o software proprietário é incrivelmente caro e incrivelmente lento para acompanhar as mudanças. O Software Livre garante custo, particularmente custo de implantação, mais baixo *e* pode ser moldado rapidamente às mudanças do mercado.
O resto é em cima do fato de ser uma empresa das Organizações Globo. Mas a Globo.com, antes de ser uma empresa das Organizações Globo, é uma empresa de internet…