Globo no Fisl: o que isso realmente significa?
by Rodrigo Savazoni
O André Deak escreveu e eu fiquei curioso. Fui investigar, e encontrei essa foto aí. A Globo estava no Festival Internacional de Software Livre, o Fisl. Patrocinou o evento e montou estande por lá. Indaguei-me: afinal, o que isso realmente significa?
Escrevi um texto, publicado aqui e no Observatório da Imprensa com o qual debato a opção do monopólio pela perpetuação do monopólio. Nesse texto, cito a Globo, e seus padrões monopolistas.
Segundo o Deak, a Globo causou frison no Fisl. Principalmente entre os programadores, por causa da convocatória “precisamos do seu talento”. Ou seja, a Globo quer ter na sua equipe quem manje de software livre. Legal.
Dois gerentes de tecnologia da empresa, Marco Lucio Moreira e Jacques Douglas Varaschim, estiveram na sala de imprensa conversando com os jornalistas. “Não usamos software livre só pela economia. Usamos pela qualidade”, defendeu Varaschim. A Globo.com usa software livre desde 2002, mas espantou os participantes do FISL ao revelar que todo o sistema de votação do Big Brother Brasil, os blogs do portal e muito da parte interna de transmissão de vídeos é totalmente open source. Os gerentes deram vários exemplos de tecnologia livre usada pela Globo.com (a TV Globo usa alguma coisa, mas não souberam especificar). Foram questionados sobre a devolução para a comunidade das descobertas e evoluções tecnológicas feitas pela empresa, e disseram que pretendem aprender a fazer isso. “Ainda estamos aprendendo a compartilhar e devolver os códigos”, disse Moreira.
Essa é uma tendência que pode ser observada em vários lugares do mundo. No The New York Times, que usa wordpress nos seus blogs, no Washington Post, que utiliza o Django, na ABC, que, parece, usa alguma coisa de Plone.
Isso porque não faz sentido pagar caro por sistemas proprietários que vão amarrar e engessar o desenvolvimento da sua equipe. Sistemas proprietários esses, a maior parte, inferiores aos livres. É bom saber que as empresas brasileiras, em particular a Globo, sacaram isso.
Não sei porque, no entanto, lembrei-me de um trecho do artigo que escrevi outrora. Acho que ele ajuda a entender o que penso da presença da Globo no Fisl.
Não basta defender o software livre porque ele é uma opção economicamente mais viável. Isso é conseqüência. Há de se defender o software livre porque só ele permite que o conhecimento circule, que a troca ocorra, que a sociedade acumule.
Em relação à economia que o software livre gera, isso até o grande capital é capaz de assimilar. Não fosse assim, os grandes grupos não se preocupariam em produzir páginas de informação compatíveis com o Firefox, as quais, durante muito tempo, não rodavam em outro navegador que não o Microsoft Internet Explorer.
A qualidade do Firefox levou uma série de usuários comuns a utilizá-lo, o que – por critérios de mercado – vem forçando os defensores da propriedade a aceitá-lo. Mas isso é mercado. Ok, é um deslocamento. Uma assimilação. É sempre bom produzir bons produtos, mas muito mais importante é manter aberta e limpa a via para o desenvolvimento da liberdade e da comunicação.
E você, amigo ou amiga que vem até este blog, o que acha de a Globo usar sofware livre? E o que acha de madeireiros contrários ao desmatamento? E de latifundiários favoráveis à reforma agrária? Quem se beneficia com isso, eles ou nós?


Comments
Rodrigo, trabalhei numa extensão da Globo.com no ano passado como produtora de conteúdo para o portal Globoradio.com. Naquela época, a orientação executiva era de que usássemos blogs dos serviços oferecidos pelo portal Globo.com, o Globolog.
Algumas semanas depois de montarmos os blogs das rádios, tivemos a notícia de que o G1 tinha peitado a orientação da diretoria e colocou todos os seus blogs baseados em Wordpress. O motivo? Além de economicamente mais viáveis, os softwares de publicação do grupo Globo.com, como blogs, fotologs e publicadores php tinham sido limados com a mudança de gestão da empresa por serem ultrapassados, engessados e mal desenvolvidos.
Agora, todo o ramo de desenvolvimento de softwares da Globo.com está focada em migração da estrutura vigente para uma open source em que eles podem fazer as modificações necessárias de modo a personalizá-las apenas para eles.
Na época, foi uma grande guinada, pois a Globo.com desde então vinha engolindo diversos sapos na internet. Considero o G1 uma espécie de virada no jogo. Não que ela vá ao topo da liderança em audiência ou coisa assim, mas também não é mais objeto de riso da concorrência.
Ah, sim, e acho que as tecnologias open source já prevêem que empresas se apropriem delas e as complementem, sem dar qualquer retorno. Não vejo como algo bom ou ruim só porque é Globo.
Ô Rodrigo, talvez seja inocência, mas concordo com o comentário acima. Se a Globo se apropria, modifica, aprimora e continua dentro da proposta do SL é porque a empresa tomou essa decisão, simplesmente. Penso que é uma oportunidade para os programadores da área ganharem mais e serem mais valorizados, quem sabe.
E aí cara, tudo bem? Estou estudando uma pacote para criação de redes, desenvolvido por um pessoal da Coppe-Rio. Alguns dos participantes do fórum são pessoas da Globo que usaram esse pacote na criação do Globoonliners e hoje compartilham as melhorias.
Interessante, né, Rodrigo, que a organização do FISL, evento totalmente na contra-mão de grandes conglomerados deu espaço para um estande da Globo.com.
Interessante esse direcionamento. Há alguns anos, eles estariam fazendo uma mesa mostrando o resultado de engenharia reversa nos sistemas web usados pela Globo.
Agora, talvez tenham optado pela ênfase no aspecto de que o Software Livre, além de economicamente viável, é um dos mais robustos e confiáveis, quando o assunto é protocolos e servidores para redes telemáticas interativas.
Outro sentido interessante que vejo, é que os técnicos vinculados aos Projetos Softwares Livres no Brasil têm levado suas ideologias e competências a vários projetos governamentais e empresariais. Antes de mais nada, eles garantem que uma licença GPL continue GPL, e seu trabalho parte daí. Isso é muito bom.
Quem primeiro fez uma migração total para SL, de forma discreta, pois tinha quadro em seus técnicos gaúchos, foi o Terra. O pessoal foi a Madri e Miami treinar os de lá para implementos em SL.
Muito bom ler sobre esse assunto.
Fala velho,
sigo tua orientação e continuo aqui nossa conversa no twitter.
Achei estranho também, mas o Rafael Evangelista me esclareceu muita coisa: que existe um grupo pragmático, dentro do FISL e do movimento Software Livre, e outro mais ideológico. Há pessoas que fazem pontes entre esses grupos, respeitados por ambos (Mario Teza, por exemplo), e são eles quem conseguem misturar o que parece água e óleo.
Foi o mesmo o que aconteceu no Campus Party, onde Sergio Amadeu e Marcelo Branco estavam na organização, e a Telefônica era principal patrocinadora.
Eu fiquei convencido, depois desse FISL, que o software livre venceu. É questão de tempo. Não pelos motivos ideológicos (a Globo.com diz não ter previsão de quando vai poder retornar suas melhorias para a comunidade, aliás), mas em alguns anos vai estar tudo dominado.
Acho que é um passo, dentro de uma batalha muito maior, e na verdade pode ser que seja só um pequeno passo.
abraçao!