Lan house para (de) todos
by Rodrigo Savazoni
Há algum tempo, escrevi um post aqui (e o publiquei no Overmundo) sobre os Pontos de Acesso ao Conhecimento. Uma idéia, até meio óbvia, de utilizar a capilaridade das lan houses, um fenômeno resultante da desigualdade brasileira, para a elaboração de uma política pública libertária. A minha reflexão surgiu a partir de uma fala do Ronaldo Lemos, que na Fundação Getúlio Vargas e no Instituto Overmundo desenvolve uma importante pesquisa sobre o tema.
Volto ao tema porque na semana passada o Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGIBr) publicou sua pesquisa anual sobre acesso e conectividade no Brasil, mostrando que a maioria dos brasileiros acessa à internet por meio de centros pagos.
Da matéria de Ana Paula Lobo, do Convergência Digital, republicada pelo Observatório do Direito à Comunicação:
Apesar de os telecentros, unidades criadas pelo poder público para fomentar o acesso à Internet, terem crescido de 3% para 6% ao longo de 2007, foram os centros públicos de acesso pago em especial as “Lan Houses”, que mostraram a sua força. Hoje, 49% dos brasileiros acessam à Internet por meio delas. No ano passado, esse número era de 30%.
Não é preciso criar uma falsa oposição entre lan houses e telecentros. Sem dúvida, nos centros públicos, a proposta de inclusão digital (cada vez mais gosto menos dessa expressão) é mais ampla. No entanto, restringe certos usos, justamente aqueles que mais atraem os jovens: jogar em rede e paquerar.
Como aponta Augusto Gadelha, do CGIBr:
Essas casas têm cumprido um papel importante para o projeto de inclusão digital. E tenho que admitir: Os telecentros têm uma política restritiva de uso, uma ação que considero inadequada. O jovem tem que jogar, mas ele também vai procurar informações depois, em alguns telecentros, inclusive, já falei isso pessoalmente para o coordenador.
Os dados divulgados pelo Comitê Gestor atestam que é preciso agir para garantir que esses centros pagos façam parte de uma rede cultural, científica e educacional, e não fiquem à mercê dos “encantos” da criminalidade – em muitas comunidades, traficantes têm se apropriado das lan houses justamente porque elas se tornaram o principal ponto de encontro da juventude.
Recupero o que escrevi no post anterior:
O que deveríamos fazer é bolar uma política semelhante àquela que foi desenvolvida pelo Ministério da Cultura para os Pontos de Cultura (fortalecer o que já existe e é legítimo). Pensei em chamar de Pontos de Acesso ao Conhecimento. Neles, por meio de editais públicos (portanto voltado apenas para os que tiverem interesse de participar), o poder público se associaria ao pequeno empreendedor estimulando-o a prosseguir com seu processo de crescimento individual (por meio de valores da economia solidária e de ações de capacitação do Sebrae, por exemplo). Em contrapartida, passaria a oferecer ao público usuário da lan-house um kit de atividades complementares, que introduzissem as liberdades (de software, de produção audiovisual, de hardware, de direitos) em suas vidas.
Sei que figuras importantes do governo federal concordam com essas premissas. Portanto, é bem possível que dentro em breve topemos com uma política pública libertária para as lan houses. O potencial das articulações em rede no Brasil é monstruoso, como aponta Jonh Perry Barlow. Do que seria capaz uma sociedade brasileira conectada? Mais que isso: uma sociedade que explore os recursos do ciberespaço integralmente a seu favor? Queria ver.

Comments
Oi Rodrigo,
Também queria ver. Mas creio que o maior problema seja a formatação desses kits de atividades complementares.
Há alguns anos, participei de um projeto que implantou 1000 “laboratórios de informática” em escolas públicas Brasil afora. Cada um tinha 10 micros, em rede, fruto da doação de empresas que trocaram seus pentium 1 por modelos mais modernos. A proposta incluía pequenos pacotes de conteúdo colaborativo para troca de idéias e dados entre os alunos de escolas de regiões diferentes. Tudo apoiado num projeto de mobilização pela TV com voluntários da comunidade.
Parece bom, né? Não deu em nada. As escolas públicas não conseguiram pagar a conta da conexão com a Internet (discada). Os professores não conseguiram aproveitar o potencial dos kits e nem dos “laboratórios”. Proibiram os alunos de usar. Sem uso, as propostas colaborativas murcharam até morrer.
Poderia ter responsabilizado os professores por esse fracasso. Preferi culpar os kits. Não acredito mais que qualquer proposta de construção de conhecimento tenha capacidade de ser mais atraente para os jovens do que a vida alheia, a paquera e os jogos. Por isso eles preferem as lan houses às escolas e às bibliotecas.
Talvez tenha perdido a energia para propor ou fazer alguma coisa. Mas continuo querendo ver. Por favor, continue a nos contar.
Um abraço,
Lacy
Babalu (alguém mais te chama assim?), quanto tempo! É a primeira vez que venho ao teu blog. Parabéns pelo trabalho. Beijocas
Hummmmm e o que pode ser feito para estimular essa gente do governo que também acredita no potencial das lan house pra gente ver isso acontecer? Será que MUITOS blogs ( muito mesmo) não teriam a chance de juntos dar voz a esse desejo?
Oi Rodrigo,
parabéns pela sua visão. Somos da ONG Ação Israelita, estamos encabeçando um projeto social de inclusão digital e educação para as classes D e E.
Veja o projeto: http://www.lanhousing.com.br/projeto_social.htm.
Precisamos doação de computadores antigos, computadores que não se usa mais.
Por que computadores antigos? É montado rede composta de terminais burros. Todo processamento da rede é desempenhado pelo servidor, assim os terminais utilizados podem ser computadores obsoletos, sem HD.
Inauguramos no começo de Abril projeto piloto em Paraisópolis, 2º maior favela de São Paulo.
O projeto tem como objetivos:
– educação: são mais de 50 cursos à distância doados com certificação;
- inclusão digital: apenas 12% da classe D e E tem acesso (Comitê Gestor da Internet-2006)
- democratização de serviços públicos: serviços online de utilidade pública;
- emprego e renda: destinado ao pequeno empreendedor de comunidade carente.
Veja o vídeo que está passando no BusMídia: http://www.youtube.com/watch?v=71t3j2U5u4A
O esforço é levar a comunidades carentes a formação, capacitação, acesso a serviços públicos, inclusão social e digital. O objetivo é social, sem vínculo político ou religioso, com oferecimento às comunidades de cursos gratuitos para capacitação ao emprego e acesso a computadores.
Veja alguns candidatos contemplados:
http://www.lanhousing.com.br/ccci/H%E9lio%20Flavio%20Pereira.pdf
http://www.lanhousing.com.br/ccci/Alexandre%20Barroso%20Cardoso.pdf
Abraços!
Ioram Cejkinski
Tel: (11) 3826 0007