Um papo confuso sobre internet e TV

by Rodrigo Savazoni

Internet e televisão. Audiovisual. Vídeos na rede. Pode ser que nos Estados Unidos e na Europa todo mundo assista. Por aqui, não é bem assim, mas o caminho sinuoso avança por essa vereda.

Tenho pensado, por vários fatores, em vídeo digital (conteúdos audiovisuais produzidos em 0s e 1s). Esse é um papo, pelo que percebi, confuso e controverso, porque várias categorias se misturam. Um mundo.

É bem provável que esse cenário permaneça assim até que tenhamos a tão falada e almejada convergência – que eu imagino, será integralmente por meio da tecnologia IP. Mas não arriscaria nada, considerando a velocidade das mudanças. O tempo é de confusão mesmo. De incunábulos, como diz a Janet Murray, em Hamlet no Holodeck (aliás, alguém aí já leu esse livro?)

Mesmo assim, vou tentar organizar algumas idéias aqui. É o princípio de uma conversa, talvez mais divertida se regada a psicotrópicos.

O histórico desse debate aponta, fatalmente, para o YouTube, o quinto site mais acessado atualmente no Brasil. Antes, muitas experiências com vídeo na internet foram desenvolvidas, mas foi depois que Chad e Steve puseram seu brinquedo no ar, em fevereiro de 2005, que a febre virótica do vídeo online se espalhou pelo planeta.

Claro, isso tem a ver com a difusão da banda larga e com a crescente capacidade de processamento de dados dos computadores pessoais. Mas não só. Teve também a ver, digamos, com a dinâmica inteligente da rede, que melhora a medida que mais gente dela participa. E, boom, estourou. Outros sites – até melhores (ou não) que o YouTube – fizeram (e fazem) parte desse processo, como o próprio Google Vídeos, o Dot Sub ou o The Revver, entre outros.

A coisa, então, ganhou força. Logo, surgiram softwares que transformam seu computador em televisão. Ou também pode ser, transformam sua TV em computador.

De certa forma, foi uma resposta dos grandes conglomerados ao fenômeno YouTube. A BBC, por exemplo, apostou em desenvolver seus próprios softwares para garantir a “fidelidade” de seus usuários. Parece que não foi bem sucedida. Tem também o fenômeno da Apple TV. A lista vai longe.

Nessa linha, as experiências mais interessantes são as que utilizam a tecnologia P2P (Peer to Peer), o que potencializa a capacidade de tráfego de dados (portanto, a velocidade, para quem quer assistir a um longo programa de TV em seu computador). O Joost, por exemplo, criado pelos caras que detonaram as empresas de telefonia com o Skype, é um deles.

Dessas, a que mais me agrada é o Miro, do movimento To Keep Video Open, totalmente livre e adequado à dinâmica on demand da internet. O problema de todos eles é que são softwares que precisam ser instalados na sua máquina. Não são softwares online.

As emissoras de televisão “tradicionais” seguiram se movimentando. Afinal, o YouTube forjou uma mudança cultural na forma de assistir à televisão. Algumas emissoras começaram a usar a web para atrair o público, que passou a ser, além de espectador, produtor de conteúdos. De repente, vídeos produzidos pelos usuários começaram a ir ao ar, via broadcast.

Nessa linha, a aposta mais radical foi coordenada pelo prêmio Nobel da Paz, Al Gore. Ele lançou, há dois anos, uma emissora chamada Current TV, cuja programação é integralmente participativa. O site capta os conteúdos que são postados no site da Current e os projeta por meio de uma emissora comum. É TV e é internet.

No Brasil, a Editora Abril lançou projeto semelhante, quase um ano atrás, chamado FIZTV. Todo o conteúdo de programação da emissora é construído pelos interatores.

Mas, voltando, é preciso falar das tentativas de programações audiovisuais integralmente na internet. A tecnologia que permite ao caboclo ou à cabocla assistir a um determinado arquivo pela internet enquanto faz o download para a sua máquina é conhecida como streaming. Na época das conexões lentas, uma das pioneiras em levar a televisão para a internet, no Brasil, foi a AllTV.

Parecia uma loucura, e naquele momento efetivamente era (porque ninguém tinha máquina nem banda para baixar os arquivos com qualidade e velocidade), mas nos últimos anos começou a ser possível oferecer vídeo em tempo real para bastante gente, com boa qualidade. E agora existem milhares de soluções para realizar esse tipo de serviço. Valia um post a parte.

Essa tecnologia se mostra mais interessante quando quem exibe detém uma programação “fechada”, ou seja, mais dentro da lógica do broadcast (um programa na seqüência do outro). Também é ótima para transmissões ao vivo (um show, um debate, uma palestra).

Já existem sites que oferecem facilidades para se desenvolver streaming, o que pode permitir a cada indivíduo ter a sua própria emissora no ar, em tempo real. Desses, o maior é o Ustream.

Agora, tem até uns americanos radicados na Argentina anunciando a primeira programadora de conteúdos High Definition (HD) para internet. Chama-se Mariposa e eles utilizam BitTorrent nessa brincadeira. Esses caras acreditam que o entretenimento vai se redefinir, que não adianta produzir para a televisão mais, que é preciso produzir e disponibilizar na rede e cada um assiste do jeito que quiser. Pode ser.

Mas eu prefiro parar por aqui. Porque, de fato, estou bem confuso.