A genealogia do Nação Palmares
by Rodrigo Savazoni
O documentário interativo Nação Palmares é ponto final e marco zero.
É o ponto final da minha trajetória no comando da Agência Brasil. Em quase quatro anos de trabalho, fui coordenador editorial, redator-chefe e editor-chefe da agência de notícias pública. Desde o princípio, trabalhei para ampliar interna e externamente a compreensão do que deve ser um veículo digital na rede (remodelando-o para explorar qualquer plataforma, principalmente as audiovisuais, puxando o processo de integração de mídias característico deste nosso tempo).
O período da minha liderança coincide com a popularização da banda larga no país (embora a exclusão digital seja gigantesca), o que facilitou a tarefa. Foi também (e continua a ser) época de profundas mudanças da internet, em que o jornalismo digital abandonou sua primeira fase inspirada no tradicional broadcast para surfar nas veredas múltiplas e em construção da web 2.0. Sem dúvida, seria mais difícil fazer o que fiz se o contexto não fosse tão propício.
A Agência Brasil desenvolvia muitas reportagens em 2003, quando era chefiada por Leandro Fortes, mas explorava muito pouco os recursos multimídia e as realizava em separado das outras mídias da Radiobrás. Boa parte desse trabalho de fôlego jornalístico vinha sendo coordenado e realizado por Spensy Pimentel.
Minha tarefa inicial na empresa era trabalhar pela unificação das mídias, pela convergência das idéias, em um mamute repleto de muros e fossos.
Assim que cheguei, me somei a Spensy na primeira experiência de unificação de linguagens da Radiobrás. A série de reportagens Brasil Interrompido – Os 40 anos do Golpe Militar de 1964 foi ao ar na agência, nas rádios e na TV. Um trabalho insano, com resultados muito desiguais. Jornalisticamente, fizemos coisas muito boas, mas fracassamos no tratamento editorial final.
Estava aí um gargalo que nos acompanharia por um bom tempo.
Já o primeiro especial multimídia da Agência Brasil foi ao ar ainda em 2004. Com a saída de Fortes e sua equipe, desci para editar a primeira página do site. Encontrei um pessoal arredio e pouco afeito a inovações.
Fazer o especial multimídia Rádio Nacional foi o meio que encontrei para unificar a equipe de web. Queria mostrar aos profissionais que eles poderiam ir além do que vinham fazendo. O resultado não é dos melhores (e está desconfigurado atualmente), mas pela primeira vez a agência publicava conteúdos em áudio, vídeo, foto e texto em um site integrado. Um avanço, se visto por esse ângulo.
Daí em diante, concentrei-me, conjuntamente com meus parceiros Spensy (que, entre outras coisas, sempre foi o principal repórter de nossa equipe) e Flávio Dieguez (então meu chefe direto), nas reformas estruturantes da redação.
Os planos de inovar, de fazer reportagem multimídia, ficariam para depois, mas eu os continuava nutrindo em papos com Eugênio Bucci e, principalmente, com Celso Nucci, que sempre nos colocava o desafio da construção de uma linguagem radicalmente jornalística.
Lembro-me até de uma conversa que tive com José Roberto Garcez, o diretor de jornalismo da empresa, ainda em 2004, sobre a vontade de não abandonar essa idéia. A equipe do JC Online de Pernambuco, que fora em 2004 finalista do Prêmio de Jornalismo da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI) – prêmio que eles viriam a ganhar no ano passado – já era a melhor do Brasil.
Garcez sempre foi um entusiasta do multimídia e chegamos inclusive a discutir se não seria o caso de contratar a equipe do JC, mas infelizmente uma marca dos nossos anos de Radiobrás era não ter recursos para vôos dessa natureza.
A (re)montagem de uma equipe
O caminho seria montar a nossa própria equipe. O que de fato fizemos. Dos nomes que realizaram o especial da Rádio Nacional, apenas eu e Mário Marco Machado permanecemos até a feitura de Nação Palmares. Mário Marco porque conseguiu acompanhar a evolução das tarefas tornando-se um exímio programador em flash, contribuindo diretamente para o desenvolvimento técnico de toda a equipe.
Seguimos tocando a vida, fazendo as alterações na redação, até que, em 2005, André Deak, que estava na Radiobrás coordenando o departamento de notícias internacionais, entra para o nosso time, para dar novo fôlego às reportagens. Antes dele, nossa edição tinha sido reforçada por Aloisio Milani e logo mais receberia o reforço de Daniel Merli, Pedro Biondi e Janaina Rocha. Na fotografia, Marcello Casal Jr. dava as caras, com a responsabilidade de acabar com a chapa-branca.
Spensy, Milani e Deak se destacaram por, nesse período, como editores ou como repórteres, realizarem ótimos trabalhos. Mas sempre num formato mais tradicional, com uma ou outra experimentação mais pontual, como no caso de A Geopolítica do Cerco. Também vinham contribuições pontuais, mas fundamentais, da equipe do Rio de Janeiro, coordenada pela excelente e premiada repórter Edna Dantas.
O sonho que compartilhávamos, no entanto, era explorar com radicalidade novas linguagens a fim de modificar o padrão de reportagens texto-e-foto da Agência Brasil. Eu falava muito sobre isso com Roberto Romano Taddei, ex-editor chefe do Portal do Estadão e meu parceiro na coordenação da reforma gráfica e editorial da Agência Brasil, que teve início apenas em janeiro de 2006, muito embora eu estivesse nela pensando e por ela lutando desde o primeiro dia em que cheguei na redação.
Por volta de maio desse mesmo ano, numa reunião com participação de Romano, Dieguez, Deak, Mário Marco e Yasodara Córdova (uma inexperiente e competente artista gráfica, ex-aluna do curso Abril, a quem chegamos por meio da indicação de Marília Scalzo), entre outros, falamos sobre a possibilidade de construir narrativas integradas e de como deveríamos fazê-las.
Um dos temas da pauta foi justamente explorar a idéia de várias camadas interativas para contar uma história tendo no vídeo a plataforma principal. Não sabíamos como, mas queríamos fazer o Nação Palmares. Antes de realizá-lo, a gente pastaria bastante.
Enfim, uma rotina de produção
Em junho de 2006, com a reforma do site concluída, redação bem estruturada, pudemos nos concentrar nesse objetivo. E o melhor, com condições técnicas mínimas para fazer muito mais do que tínhamos feito até então.
Deak foi promovido a Editor Executivo Multimídia e Milani a Editor Executivo. Spensy continuou na coordenação de projetos especiais, mas naquele momento foi deslocado para a editoria multimídia de eleições, coordenada por Helenise Brant. O cargo de Editor Multimídia era uma inovação. O profissional teria que desenvolver as seguintes tarefas, conforme descrição do Plano Editorial da Agência Brasil de 2006:
• Acompanhar o fluxo de produção de notícias em áudio e vídeo dos veículos da Radiobrás;
• Coordenar o processo de digitalização de vídeos, de acordo com as necessidades da Agência Brasil;
• Trabalhar com a Editoria de Fotografia e a Editoria de Arte para garantir o suprimento de imagens à Brasil com agilidade e qualidade;
• Coordenar o fluxo de produção da Editoria de Arte;
• Manter atualizada a área multimídia da primeira página, em conjunto com a Editoria Executiva;
• Com base nas sugestões da Central de Pauta e da Coordenação de Pauta, planejar a produção da Editoria de Arte e o aproveitamento do material noticioso dos veículos da Radiobrás.
Não havia, portanto, nas atribuições de Deak responsabilidade exclusiva pelas reportagens multimídia. Eu tinha certeza que essa era uma tarefa a ser assumida não apenas por um profissional. Era algo para uma equipe. Para uma redação.
Deak, no entanto, encontrou nesse veio o lugar ideal para trabalhar e colocou sua criatividade a serviço dele. Com isso, conduziu com qualidade os trabalhos da Editoria Multimídia. Em pouco tempo, criou um blog e se tornou uma referência para a discussão de jornalismo digital.
Sob nossa gestão, a Agência Brasil consolidou o uso de infografias, estáticas e animadas, publicou vídeos, áudios, realizou experimentações estéticas, rompeu com a mesmice, qualificou profundamente seu trabalho fotográfico. E, principalmente, realizou alguns trabalhos de reportagem dignos de nota, entre os quais Consumo Consciente, O que Espera o Brasil, Terra Invadida e Usinas do Rio Madeira: problemas ou solução?
Esses dois últimos trabalhos, aliás, executados com participação direta de Biondi. Ambos foram finalistas do Prêmio Caixa de Jornalismo Social, prêmio este que já tínhamos vencido em 2006, com o trabalho A Ameaça do Agrotóxico, de Paulo Machado.
Sem grandes inovações de linguagem, mas com um conteúdo avassalador, o trabalho de Machado conta a história de Lucas do Rio Verde, município de Mato Grosso que foi pulverizado por uma nuvem de agrotóxicos.
A contaminação de casas, alimentos e pessoas serviu de ponto de partida para Machado fazer uma ampla investigação sobre o uso de veneno no campo brasileiro. Ainda assim, mesmo premiado, era um trabalho que carecia de tratamento final, por assim dizer.
Foi somente com o trabalho coordenado por Aloisio Milani, o web-documentário Bon Bagay Haiti, que eu acredito termos atingido o nosso melhor. Primoroso no acabamento, o trabalho foi a demonstração de que os tempos do malfeito tinham, definitivamente, chegado ao fim. Isso, para citar apenas uma das qualidades do trabalho, que articula textos, fotos e vídeos e esforço de reportagem, revelando um olhar exclusivo sobre o Haiti.
Todos esses trabalhos foram fundamentais para que fizéssemos o Nação Palmares. Cada um nos deu algo, que foi usado nessa nossa mais peculiar experiência de reportagem.
A hora e a vez da Hipermídia
Publicado no dia da Consciência Negra e com a pretensão de explicar a luta dos quilombolas brasileiros por terra e cidadania, Nação Palmares é um trabalho hipermídia. Nele, informações complementares em vídeo e texto são penduradas a um documentário principal de doze minutos com começo, meio e fim. O usuário pode assistir à história linearmente, e se isso fizer irá abandonar o trabalho sentindo-se informado.
No entanto, outras duas camadas, com reportagens, textos e links externos, oferecem mais e mais conteúdos. Estes, associados à narrativa principal, aprofundam as informações. Não se trata de um luxo. É por meio da narrativa secundária e terciária (como resolvemos chamá-las) que o internauta tem contato com o jogo de interação da rede. Sem ela, temos nas mãos apenas uma história linear. E, a meu ver, nenhuma realidade é linear.
Boa parte dos Especiais Multimídia que eu conheço se baseiam em um conteúdo principal que se abre para outros conteúdos. Geralmente, no entanto, a narrativa principal (como é o caso do trabalho brasileiro Longe da Casinha de Bonecas, do JC Online, vencedor do prêmio da FNPI) é um texto. Os conteúdos multimídia vêm associados às palavras que contam a história. O primeiro movimento do usuário é ler, para depois escolher se quer ouvir ou assistir.
Nação Palmares é vídeo sobre vídeo e texto sobre vídeo. O usuário assiste primeiro, para ter nas palavras um suporte complementar, o que, na minha opinião, aproxima mais o conteúdo das demandas desta geração alfabetizada visualmente pela televisão. Não que a leitura seja dispensável. Eu, particularmente, não conheço tecnologia mais bem sucedida que o livro, mas a reflexão sobre os diferentes usos possíveis das diferentes mídias é fundamental para que a reportagem possa ir adiante.
Alguns erros para aprender
De tudo o que fizemos para o avanço da reportagem e do multimídia, na Agência Brasil, faltou, avaliando agora, difundir melhor esse processo, para fora e para dentro. Por um lado, fazer com que nossos trabalhos fossem mais vistos. Por outro, fazer com que mais editores tomassem parte do esforço, o que não foi possível devido a incompreensão da redação e a erros de gestão cometidos pela cúpula da diretoria de jornalismo da Radiobrás.
O principal desses erros, creio, foi a tolerância a um regime diferenciado de trabalho dentro da mesma estrutura. Apenas uma parte dos profissionais da empresa – justamente os que estavam sob meu comando – tinha responsabilidades cotidianas de produzir matérias para mais de uma mídia, o que vinculou a palavra multimídia à expressão “exploração trabalhista”.
Lutei bastante contra isso, mas perdi. Cheguei a desenhar um curso, a ser ministrado por mim e por Romano, com participação de outros jornalistas, que não saiu do papel justamente porque o contexto era desfavorável. Esse curso, ou parte dele, eu viria a dar na Usina de Artes João Donato, no Acre, sob o título de curso de Informação Interativa. Mas agora é tarde, e o leite derramado já azedou faz algum tempo.
Ao futuro, então
Ponto final de uma trajetória, Nação Palmares também é marco zero de um modelo de fazer reportagem que eu continuarei a perseguir.
Nesta era em que vivemos, a informação crítica, contextualizada, radicalmente conectada com a realidade pode mudar muita coisa. No mínimo, pode impedir que a infâmia continue a se alastrar. E para dar conta de uma realidade complexa, eu chutaria que é preciso pensar sobre o que devemos falar (a pauta), com que valores (a ética), e em uma linguagem à altura do desafio (a estética).
Com Nação Palmares, apontamos um caminho. Espero que eles sejam muitos.


Comments
[...] Savazoni publicou hoje o post A Genealogia do Nação Palmares, contando bastante do trabalho interno que levou até a publicação desse documentário [...]
[...] (05/12/2007): o Rodrigo Savazoni escreveu ontem a genealogia do Nação Palmares. Ou melhor, como foi a busca por novos formatos de [...]
Caraca, demorou mas cheguei até o fim. Sensacional a trajetória que vc narra. Serve como um ótimo guia pra quem quiser seguir essa linha. Muito bom, cara, vamos continuar conversando sobre isso, blz?
Abraço,
Paulo
Ficava eu aqui comigo pensando o que vocês andavam fazendo lá na Radiobrás. Especialmente os tais bastidores por detrás da noticia (fofoqueiro que sou). Pois eis que Rodrigo resolve desenbuchar pra todo mundo ver, e ler, e ouvir, e sentir, e escrever, e interagir. Agora eu posso dizer que sei. Gostei muito de saber. O documentario é sensacional.
[...] Rodrigo Savazoni, um dos autores do projeto, publicou um making of, ou, nas suas palavras, uma genealogia do documentário, que resulta também em um histórico da adaptação dos trabalhos da [...]
A experiência narrada pelo Savazoni neste post é sem dúvida a prova inconteste de que é possível fazer muita coisa contando apenas com a criatividade e a disposição de pessoas. Imagine com um pouco mais de recursos… Certamente, a convivência de dois anos com esta “meninada” só ampliou a minha forma de ver o mundo e as possibilidades imensas que temos para explorar em termos de novas mídias e na confluência de várias delas. Obrigada Rodrigo, Aloisio, André e Spensy pela oportunidade de compartilhar com vocês as minhas experiência e, ao mesmo tempo, ter aprendido tanto com a vivência de vocês. Estou com saudade.
Savazoni,
Se algum dia você for dar o curso aqui em Brasília me avise, hein!
Parabens pelo trabalho.
Rose Angélica
[...] novas mídias. Quer submetê-las, essas filhas da anarquia. O repórter não se rende ao mercado. O repórter fiscaliza o mercado, o estado, o governo, em nome do cidadão. Na era digital, o repórter é o cidadão. O olhar do repórter, dos leitores, que também são [...]