Cinco músicas

by Rodrigo Savazoni

Fiz, a pedido do pessoal do Gafieiras, uma seleção das cinco músicas que me definem. Acabei optando, quase integralmente, por clássicos brasileiros. Mas poderia ter feito pelo menos umas dez listas diferentes. Então, aqui no meu blog, eu vou fazer várias listas e vou convidar alguns amigos a fazer o mesmo. Enquanto isso, fiquem com a lista original:

01. ORAÇÃO AO TEMPO
Autor(es). Caetano Veloso
Intérprete. Caetano Veloso
Disco. Cinema transcedental
Artista. Caetano Veloso
Gravadora/Ano. Philips/1979

A única certeza que tenho ao iniciar a elaboração desta lista é: a primeira música tem de ser de Caetano Veloso. Escolhi “Oração ao tempo” por causa do verso “o tempo é um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”, a trilha sonora da minha paternidade quando Júlia, minha primogênita, nasceu. Caetano é quem estilhaça a música contemporânea brasileira. É aquele que entrou e saiu de todas as estruturas, dialogando com o mercado da cultura numa relação dialética e antropofágica (ao lado de Gilberto Gil). E Cinema transcedental é um disco muito legal.

02. SAN VICENTE

Autor(es). Milton Nascimento e Fernando Brant
Intérprete(s). Milton Nascimento
Disco. Clube da esquina
Artista(s). Milton Nascimento e Lô Borges
Gravadora/Ano. Odeon/1972

Esse é um disco que deveria estar em qualquer lista dos cinco mais da música brasileira pós-bossa nova. É o resultado do encontro de uma geração, em Belo Horizonte, que elabora uma obra coletiva, processando num caldeirão as vozes ancestrais dos negros que pereceram nas estradas do ouro, bossa nova, Beatles, música folk latino-americana, com letras ora surrealistas (principalmente as coisas do Márcio Borges), ora neorealistas (as coisas de Fernando Brant). Nesse disco são todos jovens (Lô Borges com apenas 19 anos), de esquerda, animados, e carregam consigo uma compreensão ética e estética do Brasil muito a frente do seu tempo. Compreensão esta que pode ser conferida em “San Vicente” (“coração americano, com sabor de vidro e corte”).

03. PRA DIZER ADEUS

Autor(es). Edu Lobo e Torquato Neto
Intérprete(s). Edu Lobo e Tom Jobim
Disco. Edu & Tom, Tom & Edu
Artista. Edu Lobo e Tom Jobim
Gravadora/Ano. Polygram/1981

Bom, na minha opinião, essa é a melhor canção que poderia existir para embalar uma fossa, com sua letra direta, simples e confessional. “Vem, eu só sei dizer / Vem, nem que seja só pra dizer adeus”. Edu Lobo e Tom Jobim são a reserva de elegância harmônica da música brasileira. Aqueles que aceitaram e venceram o desafio proposto por Villa-Lobos, no universo do popular. Quem, mais do que eles, conseguiu realizar o sonho modernista de Mário de Andrade de produzir biscoitos finos para as massas, associando-se a grandes poetas? Estava em dúvida entre eles e Noel Rosa. Fiquei com eles. Mas poderia ficar com Noel que, de certa forma, foi o precursor de tudo isso que temos hoje.

04. PALHAÇO

Autor(es). Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro
Intérprete. Egberto Gismonti
Disco. Circense
Artista. Egberto Gismonti
Gravadora/Ano. EMI-Odeon/1980

Essa escolha é a minha homenagem à Música Instrumental Brasileira (MIB), construção original, que se estrutura a partir da sintaxe do choro e prossegue por durante o século passado produzindo grandes momentos da música mundial. Gismonti é um desses monstros da música contemporânea, um virtuoso, um multi-instrumentista, um compositor criativo que soube reprocessar essa tradição instrumental do país. Pensei também em homenagear um músico da minha geração, que daqui a 20 anos será cultuado como Gismonti. Esse músico é André Mehmari. Mas Gismonti, neste espaço, representa todos os grandes da MIB. Inclusive André, Maurício Carrilho, Raphael Rabello, Yamandú, Paulo Moura, e por aí vai…

05. CAIU A FICHA

Autor(es). Fred 04, Bac e Xef Tony
Intérprete(s). Mundo Livre S/A
Disco. O outro mundo de Manuela Rosário
Artista(s). Mundo Livre S/A
Gravadora/Ano. Candeeiro Records/2003

Para não parecer que sou coroa, taí minha reverência à molecada de Recife, na referência ao sub-comandante Fred Zeroquatro, autor do manifesto manguebit. “Computadores fazem música, artistas fazem dinheiro”. Nos anos 1990, foram esses caras que apontaram para o novo, para o colaborativo, para as redes, para a liberdade do conhecimento, para o sampler, para o Glocal (“pensar global, agir local”), para aquilo que veríamos explodir em Seatle, em Genova, em Porto Alegre (Ação Global dos Povos, Fórum Social Mundial). Essa música é um hino escrito por Fred um pouco antes do atentado de 11 de setembro. “Não existe guerra alguma / Apesar de todo esse barulho infernal.” Deste disco é preciso ouvir também a homenagem a Xicão Xucuru. Esse é a antena da praça do nosso tempo.