Rodrigo Savazoni

Balanço sobre atividades realizadas em 2009

O jornalista Carlos Minuano me entrevistou, logo após o encerramento do Fórum da Cultura Digital Brasileira, para matérias na Folha e na Revista Brasileiros. Saiu uma coisa aqui e outra ali, mas isso é o menos importante. Nas respostas que escrevi para ele, tem um bom balanço de algumas coisas que andei fazendo em 2009, que pode interessar para quem quiser saber o que está rolando. Peguei essas respostas, dei uma ajustada ao contexto atual e segue abaixo.

1. Qual seu balanço do Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Que avanços ele trouxe?
Superou expectativas. De 2003 para cá, houve alguns marcos importante no processo de criação, dentro do Governo Federal, dentro do Ministério da Cultura, de uma política para o digital. O principal, sem dúvida, foi o encontro de conhecimentos livres, no Piauí. Mas isso já estava muito distante. Esse encontro consolida um processo iniciado no fim do ano passado de dotar o país de uma nova institucionalidade para pensar as políticas culturais, de conhecimento, no século 21.

A cultura e o conhecimento não podem ser apêndices. São o centro de uma nova forma de desenvolvimento. Algo que precisaremos enfrentar para não repetir os erros cometidos durante o século 20 e que levaram o planeta para a beira do abismo. Acho que, nesse sentido, o encontro foi muito feliz, porque todos que dele participaram saíram maiores do que entraram. Agora, o processo segue, na rede social culturadigital.br.

2. Fale-me um pouco sobre a proposta do laboratório de cultura digital, quantos projetos reúne?
O Laboratório Brasileiro de Cultura Digital é uma ONG que fundamos em 2008. Agora, estamos consolidando o seu papel. A ideia é ser uma referência na sociedade civil para temas como cidadania em rede, cultura e tecnologia, apropriação das tecnologias para fins educacionais, transparência pública de governos e do mercado, entre outras questões que, poderia dizer, compõem uma agenda contemporânea.

Estamos desenvolvendo um projeto para levar cultura digital às cidades, aos gestores públicos locais, com financiamento da Fundação Ford. Também promoveremos o lançamento de um filme sobre ativismo, chamado 10 Táticas para Transformar Informação em Ação, uma iniciativa que o VJ Pixel está encabeçando, e estamos preparando uma série de novas parcerias.

Foi o Lab, como chamamos essa ONG, que promoveu o encontro Cibercultura 10+10, com patrocínio da CPFL Cultura.

O Laboratório é uma das instituições que compõem a casa da cultura digital, que é um espaço de co-habitação, de compartilhamento, que criamos em São Paulo, na Barra Funda. Nesse espaço, operam empresas e pessoas, dispostas a fazer coisas para o tempo em que vivemos.

Somos absolutamente independentes. Pagamos nossas contas com o nosso trabalho.

Na casa estão a FLi Multimídia, que é a minha empresa, com André Deak e Lia Rangel, o Laboratório, a Garapa, uma produtora multimídia com um trabalho fantástico, a Nunklaki, empresa de Pedro Markun, a Esfera, empresa que está promovendo os Hackdays da Transparência, o VJ Pixel, a Ong Veredas, a Maracá, a Beijo Técnico Produções Artísticas, produtora que organizou o Fórum da Cultura Digital Brasileira, o professor Sérgio Amadeu tem uma sala também. Tudo está indo muito bem. Difícil é trabalhar, com tanta gente interessante trocando informações e perspectivas o tempo inteiro :-)

A casa tem sido usada como um ponto de referência, em São Paulo, para muita gente. A Abrafin e o Circuito Fora do Eixo já usam a casa como uma base na cidade, o pessoal do Partido Pirata já se reuniu lá, fizemos reuniões com o pessoal da Wikimedia, bom, a lista é enorme. Estamos abertos justamente para construir um ambiente para a criação compartilhada, coletiva e transformadora. Só não cabe, e nem poderia ser diferente, ranhetas na nossa vila.

Outra coisa que pretendemos fazer é uma ação para a região da Barra Funda, que vem se tornando um espaço vivo culturalmente na cidade, com enorme potencial.

Por isso mesmo, estamos acompanhando o reflexo das políticas higienistas do atual prefeito, que ao render-se aos especuladores na região central, está promovendo uma diáspora dos moradores de rua e viciados para outras regiões. Precisamos ter uma política para essas pessoas, tentar ajudá-las, e nisso, a nossa presença por ali pode contribuir em alguma coisa. Estamos conversando com outras organizações para bolar o que fazer.

3. Fale-me um pouco sobre o processo do forum cultura digital?

O processo começou a ser desenhado há dois anos, por mim, Cláudio Prado, Álvaro Malaguti, hoje na RNP, José Murilo Jr, Gerente de Cultura Digital do Ministério da Cultura e Alfredo Manevy, atual Secretário Executivo do Ministério, na época Secretário de Políticas Culturais. Era a nossa forma de organizar um ambiente institucional que levasse adiante essa temática após a saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura. Sempre a entendemos como algo central para o país. Essa era uma agenda que estava muito ligada à pessoa de Gil, que é um formulador, um entusiasta, da cibercultura. Com sua saída, a tendência era isso arrefecer, posto que a única área que existia, naquele momento, para promover políticas e projetos nesse campo era uma ação, fabulosa mas completamente intermitente, dentro de um programa voltado para os Pontos de Cultura.

Então iniciamos esse processo, para reposicionar o debate e fortalecê-lo, baseado em uma interlocução radical com a sociedade. O problema é que entre o planejamento e a realização desse projeto passou-se um ano. E então, a forma de fazer mudou um pouco. Coube à secretaria de Políticas Culturais do MinC, sob comando de José Herencia e José Murilo Jr, que é uma liderança fantástica, a condução política do processo.

Em junho deste ano, a Ministra Dilma Roussef anunciou o Fórum durante o Festival Internacional de Software Livre, o Fisl, em Porto Alegre. Naquele momento, subimos a rede social www.culturadigital.br para o ar e começamos a enviar convites para pessoas previamente mapeadas do governo, do estado, da sociedade civil e do mercado. No fim de Julho, fizemos o lançamento oficial do processo e abrimos a rede a todos os cidadãos interessados. Nessa ocasião, realizamos a primeira roda de conversa entre um ministro de estado, o Juca Ferreira, com blogueiros e produtores de mídias sociais. Também transmitimos o evento ao vivo e estimulamos a participação de pessoas em todos os estados, por meio de acompanhamento remoto.

Daí em diante, começamos a promover articulações e movimentações e a monitorar o que emergia da própria rede. Hoje temos, cerca de 3 mil participantes cadastrados. Vários grupos e blogues foram criados, e as conversas estão só começando. Também desenvolvemos essa plataforma pensando na integração das conversas, portanto, atualmente, indexamos e nos relacionamos com tudo que é produzido utilizando a tag #culturadigitalbr. No Twitter, o debate tem sido intenso. Agora, no Fórum, lançamos uma plataforma aberta para o upload de vídeos (http://video.culturadigital.br), baseada na ferramenta Kaltura, que permite inclusive o remix online de conteúdos.

Daí que chegamos ao Seminário Internacional. Com ele, descemos do ciberespaço para a atualidade, conversamos, muitas pessoas se viram pessoalmente pela primeira vez, e o que era de um certo tamanho cresceu. O trabalho dos curadores, que conduziram as articulações nos cinco eixos propostos: arte, comunicação, economia, infraestrutura e memória, já estão publicados.

Agora, em 2010, iremos começar o debate sobre um novo modelo institucional de gestão do Fórum. Queremos uma governança baseada em um conselho, eleito diretamente por um processo online (como ocorre com o Comitê Gestor da Internet), para tocar essa política.

Precisamos de novas instituições democráticas, de outra democracia, e estamos tentando realizar esse desafio.

O fato é que estamos sempre experimentando. O CulturaDigital.BR é uma plataforma experimental de mídias sociais e colaborativas voltada para o uso público. Nesse sentido, por exemplo, também fizemos testes usando uma nova tecnologia de vídeo, anunciada este ano pelo Firefox, que permite você fazer o streaming de um evento direto no browser. Não é mais necessário ter um software instalado ou um player em flash. Basta o browser. O Google Chrome e o Safari passaram a suportar essa tecnologia, que é o HTML 5.

Para fazer streaming desse jeito, utiliza-se o ogg theora, formato livre. É uma baita inovação. Nós já transmitimos o Seminário Internacional assim, para quem tinha alguma versão do Firefox 3.5 instalado, o que no nosso caso era a maioria dos nossos usuários. Quem conduziu todo esse processo foi o VJ Pixel, um dos integrantes da casa e um dos caras mais bacanas que conheço.

euepixel

Luzes

São duas luzes que convergem
num largo feixe
A estrada y a chuva
O asfalto y a água turva
Duas rotas que se bifurcam y
se bifurcam y se bifurcam
bifurcam
A terra é a tela
E a noite já não acaba mais

(novembro de 2009)

O Líder das Massas

Como podem ver, o lançamento do livro, no Rio de Janeiro, foi um sucesso. Foto do meu amigo Paulo Fehlauer. Ele, ao menos, estava lá. Para quem quiser ver mesmo como é que foi, clique aqui.

O Líder das Massas

Lançamento do meu livro no Rio de Janeiro

Convite CD

Sobre o prêmio Pulitzer para o Politifact

Ano passado eu ajudei a construir a cobertura das eleições municipais para o Estadão. Meu negócio, como sabem, é web. Foi nisso que trabalhei. Desenhei, com a Lulu e o Tiagão, o site especial que abrigaria a cobertura do portal e realizei alguns projetos especiais que foram muito bem recebidos pelos meus pares, mas principalmente pelo público. É isso que me importa, sem demagogia.

Por lá, produzi o Vereador Digital, o Eu Prometo e também o mural de apuração online, que, até onde sei, se tornou o maior blockbuster do grupo. Também auxiliei o Jelin na elaboração de dois infográficos sensacionais, que receberam o nome de A Geografia do Voto: um deles, com os votos por município, o outro um mega recorte sócio-cultural da votação dos partidos.

Não é de hoje que cubro eleições. Essa foi a quinta que participei. Em 2000, fiz alguns frilas. Em 2002, trabalhei na campanha do Lula, em 2004, participei da cobertura eleitoral da Radiobrás. Em 2006, participei da montagem de uma das experiências mais fascinantes da minha carreira, que foi a cobertura integrada e multimídia da eleição que reconduziria Lula ao poder. Em 2008, toquei esse trabalho no Estadão, do qual muito me orgulho.

Nos EUA rolava a eleição americana, que levaria Barack Obama à presidência. Como sabemos, foi uma eleição em que a internet jogou papel preponderante. No meio de um imenso volume de conteúdos e formatos, um trabalho logo de cara me chamou a atenção: o PolitiFact. Falei dele com quem pude. Mas poucos compartilharam comigo essa felicidade, o que não me abalou.

Acompanhei o projeto desde os primórdios. Falei dele em um debate na MTV. Tentei convencer meus chefes a fazer algo semelhante por aqui. O verdadômetro que eles desenvolveram, que funcionava como um filtro para o imenso volume de informações que circulavam durante o processo eleitoral, soou-me coisa de gênio.

Qual o papel do jornalismo no mundo contemporâneo, em que qualquer um pode ser um produtor de informação? Ainda seria pôr a salvo a verdade?

Um meio de fazer jornalismo seria filtrar o que se produz de conteúdo, de forma inteligente, usando de instrumentos da investigação jornalística.

Pois é exatamente isso, e nada mais, que O PolitiFact faz. Checa dados, desconstrói discursos, apura o contexto de informações que já estão disponíveis e sendo propagadas para e pelos cidadãos. Cria uma nova camada de informação sobre a informação diluída. É como uma hemodiálise. O antídoto para um fluxo ininterrupto de informações que afasta o cidadão do conhecimento.

Como escreve Aron Pilhofer:

Jornalismo serve para ajudar as pessoas a entenderem questões importantes e como essas questões tocam-nas diretamente. Serve para descobrir aquilo que alguém pretende manter encoberto. Serve para fiscalizar pessoas que nós escolhemos para altos cargos públicos. Tomando como base todas essas definições – e outras quantas você queira encontrar – Politifact mais que passa no teste. O site pega uma forma tradicional de produzir reportagem – checar o que os políticos dizem – e a transforma de um jeito só possível na web.

Essa foi uma das características do PolitiFact que mais me seduziu: o fato de ser uma ideia jornalística inteligente, que demonstra o quão importante pode ser o jornalismo na era digital.

E esse deve também ter sido o motivo que seduziu o júri do Prêmio Pulitzer a conceder à equipe do St. Petersburg Times o prêmio de melhor cobertura nacional de 2008. Como afirma Pilhofer, isso coloca o jornalismo online em um outro patamar.

Por isso, o prêmio deles é, sem dúvida, uma vitória de todos nós que topamos o desafio de fazer jornalismo de qualidade e espírito público na rede mundial de computadores.

Para entender a internet

Como me tornei um blogueiro fora de forma, absorto com a recuperação do Ronaldo (será que vai mesmo?), demorei para publicar aqui o anúncio do lançamento do livro colaborativo Para entender a Internet, organizado pelo Juliano Spyer, e para o qual escrevi um artigo sobre Exclusão Digital.

Para Entender a Internet

PS – Se você não entendeu a citação de 70 milhões de usuários de internet no Brasil feita no texto, leia este post aqui.

Em transe: A melhor TV Digital

Ela não é uma evolução da televisão. É mais parecida com um computador. E está em construção

Clay Shirky, pesquisador norte-americano de novas mídias, escreveu um livro chamado Here Comes Everybody e mantém um blog com o mesmo nome. Em um texto publicado recentemente, ele compara a mídia no século 20 a uma corrida na qual só o que importa é consumir e indica que a mídia daqui para a frente será um triatlo, em alusão à modalidade esportiva em que os atletas nadam, pedalam e correm para cumprir a prova: “As pessoas consomem, mas também gostam de produzir e de compartilhar”. Ou seja, é uma mídia feita por e para todo mundo.

A TV Digital que se discutiu no Brasil, nos últimos anos – que consiste basicamente na migração do sistema de televisão aberta e gratuita do formato analógico para o digital – pertence a esse velho mundo que está ruindo. Ninguém, no fundo, quer uma televisão que continue a estimular a passividade do público, que não permita interação, que apenas ofereça uma qualidade de imagem melhor.

De acordo com dados do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre divulgados em dezembro, quando o SBTVD fez um ano, apenas 150 mil receptores fixos foram vendidos no Brasil. A estimativa dos promotores do sistema é de que 600 mil pessoas tenham hoje acesso à TV Digital no país. Além disso, foi divulgado que a sonhada interatividade (o que poderia ser o diferencial da TV digital) só deve chegar – se chegar – em 2010.

Enquanto isso, uma outra TV Digital se estrutura no mundo todo, resultado da convergência do audiovisual com a internet. Uma TV Triatlo, para pegar a imagem construída por Shirky. Essa é a grande aposta de 2009. É assim que pensa Steve Balmer, sucessor de Bill Gates na Microsoft, conforme registrou o site G1: “Por mais de 60 anos, a TV se tornou o principal centro de entretenimento da família. Sua resolução das imagens melhorou, mas as funcionalidades se mantiveram praticamente as mesmas. Agora é a hora de TVs mais conectadas e do fim das barreiras entre televisão e computador”.

Um dos mais recentes exemplos dessa visão é o projeto internet@TV, parceria do Yahoo! com a Intel, que consiste num conjunto de aplicativos que rodam integrados a vários modelos de aparelhos de televisão. Usando o controle remoto, o usuário de TV passa a navegar na web. Não se trata de transformar a televisão em um computador, mas de um formato híbrido.

O presente ainda demonstra que a rainha dos lares brasileiros segue firme em seu trono. O futuro, no entanto, passa por aí.

A audiência dos telejornais, telenovelas e demais produtos das emissoras abertas até agora apenas sofreu arranhões. Mas, conforme reportagem publicada pela edição de novembro da revista Tela Viva, especializada no mercado de telecomunicações, o público plenamente satisfeito com a TV aberta está concentrado na faixa de idade com mais de 50 anos. Os mais jovens querem o triatlo (veja o gráfico).

Como será o amanhã

Ainda é difícil saber como será a TV do futuro, mas algumas experiências que estão em curso, no Brasil e no exterior, já apontam um caminho. Você já ouviu falar no Napster? O software que acabou com a indústria da música, por permitir às pessoas trocarem arquivos entre suas máquinas. E no Skype? O software que oferece ao usuário fazer ligações telefônicas pelo computador a custo zero. Pois bem, esses dois programas têm em comum o fato de utilizar Peer-to-Peer (ponto a ponto, ou, em tradução livre, pessoa a pessoa), tecnologia que permite às máquinas (consequentemente aos indivíduos) dialogar.

Essa ideia, aplicada à transmissão de arquivos audiovisuais, recebeu o nome de broadcatching e poderá ser o vilão definitivo da radiodifusão (broadcast). Um dos mais interessantes softwares de broadcatching é o Miro, que você pode instalar em seu computador. Ele funciona em formato de compartilhamento de arquivos sob demanda e permite a “assinatura de canais”, alguns deles exclusivos. A maioria das ofertas é apenas em inglês.

Transmissão participativa

Desde setembro, a TV Cultura, no endereço www.radarcultura.com.br/rodaviva, promove transmissões experimentais participativas do programa de debates Roda Viva, às segundas-feiras à noite. Em uma página web são exibidos três vídeos, um deles com a transmissão “oficial”, outro com os bastidores (que ficam permanentemente no ar, inclusive antes e depois do término do programa) e outro que acompanha o cartunista Chico Caruso.

Nessa mesma página há também um chat e ambientes que reúnem mensagens postadas pela rede social Twitter e fotos feitas na arena do programa por usuários da rede social Flickr. Nos intervalos, a repórter Lia Rangel invade a roda e faz aos entrevistados as perguntas propostas no chat ou pela Twitter. Essa interação tem agradado muito os participantes da experiência.

Em transe: A web imita a vida

As redes sociais, ou sites de redes sociais, são uma febre – e para muitas pessoas – a única coisa que existe na internet

O ativista Cláudio Prado, presidente do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, narra um episódio ocorrido com ele em uma favela. Ao ministrar uma oficina sobre novas mídias, perguntou aos 30 meninos e meninas participantes quantos acessavam a internet: 22 levantaram a mão. Na sequência, perguntou quantos usavam Orkut: 26 se manifestaram. No Brasil, a impressão que passa é a de que as redes sociais são maiores que a própria rede mundial de computadores. Mais de 50% dos perfis criados no Orkut são “brasileiros”.

Mas o que é uma rede social? Segundo danah boyd, estudiosa do tema e consultora de grandes empresas do mundo, um site de rede social tem três características: 1) permitir ao usuário construir um perfil; 2) articular uma lista de amigos e conhecidos; e 3) visualizar e cruzar sua lista de amigos com os seus associados e com outras pessoas dentro do sistema. O Orkut é o grande fenômeno, mas há outros casos.

No Dogster ou no Catster, donos de bichos de estimação constroem os perfis de seus animais e trocam informações. O MyChurch reúne igrejas, paróquias e fiéis e conecta pessoas que compartilham da mesma fé – aqui acontecem até cultos.

Há também opções, por assim dizer, mais mórbidas, como o Always be Remembered e o Gone too Soon. As duas mantêm perfis de pessoas que morreram, criados por amigos e familiares.

Nos primórdios, as redes sociais foram pensadas para aproximar pessoas que não se conheciam. Logo, percebeu-se que seriam muito mais úteis se trouxessem para o mundo virtual as relações já existentes fora da web (laços consolidados). Foi assim que o Friendster, rede pioneira em sucesso, se consolidou, nos idos de 2002.

No entanto, nos últimos anos, temos visto a volta de redes mais focadas, como as que citei anteriormente ou como a LinkedIn, dedicada a currículos e ao gerenciamento de contatos profissionais.

De tudo o que vi até agora – e estou sempre rastreando novos exemplos -, a mais diferente foi a Muslima, redepara acerto de casamentos entre muçulmanos, criada pela equipe da Cupidmedia. Como não consegui entrar, não descobri se são as próprias pretendentes que participam ou os seus pais.

A web imita a vida. Quer se organizar politicamente? Namorar? Encontrar um emprego? Publicar vídeos, fotos, jogar on-line ou homenagear alguém que já se foi? Todos os caminhos levam a uma rede social.

Ouça música

Blip FM (www.blip.fm), Last FM () e AccuRadio (www.accuradio.com).

O MySpace poderia estar na outra lista, pois é um dos sites mais vistos do planeta e também funciona como uma rede social normal, completa, como Orkut ou Facebook. Mas o legal mesmo ali é fuçar na área de música, na qual estão disponíveis perfis de bandas e cantores, dos grandes sucessos aos notórios anônimos. A LastFM reinava absoluta no universo das rádios colaborativas, em que era possível criar uma programação e ser ouvido pelos seus amigos, até surgir a Blip.FM, que é uma ferramenta de brincar de DJ e recomendar canções muito divertida.

As maiores
Orkut, Facebook, Skyrock, Cyworld, Bebo, Hi5

Líderes de mercado, essas redes são muito parecidas entre si. Oferecem, quase todas, as mesmas funcionalidades. A CyWorldCyworld é mais utilizada em países asiáticos, como a Coreia, onde surgiu, e a China. O Skyrock é o terceiro site mais acessado na França (os franceses têm sempre de ter seu próprio produto). A <a href="Hi5“>Hi5 bombou em países hermanos e recentemente chegou mais forte ao Brasil. A Bebo foi durante um bom tempo uma rede quase exclusiva do Reino Unido. Facebook é, de todas elas, a mais mundial, a mais “intelectual” e a mais internacional.

Legais ou ilegais

Barack Obama criou uma rede e usou-a para mobilizar a juventude durante sua campanha. Tornou-se presidente. Resta saber se vai barrar no Congresso americano o projeto de lei que propõe impedir o acesso a sites de redes sociais em escolas e bibliotecas públicas. Tomara que ele não siga o exemplo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Durante a campanha, Kassab criou a K25, uma rede social para organizar seus correligionários. Mas, no mesmo período, assinou um decreto que impede o acesso ao Orkut e a outras redes nas escolas da maior cidade brasileira. Para o político brasileiro, rede social boa é a dele.

Crie a sua
Se nada agradou, vá ao site do Ning e crie a sua rede social, sobre o tema que quiser. Geralmente, as redes criadas no Ning são menores. Elas são um ótimo substituto para o grupo de e-mails e trazem as mesmas funcionalidades que as melhores redes sociais da web.

Ainda sobre o nerdismo na Campus Party

Carlos Carlos, video-ativista, criador do programa Bola e Arte, e repórter da Fiz TV, filmou de forma privilegiada (no primeiro vídeo que publiquei é possível identificá-lo em cima do palco) o embate entre os nerds e De Leve, um dos eventos dispensáveis da Campus Party.

O realizador entrevistou longamente De Leve e Chupa, o nerd que tentou tirar o músico do palco à força. Neste vídeo que republico abaixo ele desnuda a origem do nerdismo. As cenas são auto-explicativas, mas vale destacar o choque de classes patente no discurso de um e outro.

Aproveite e veja também o Bola e Arte

PS – Em seu blog, De Leve afirma que não foi tirado do palco, que fez o show até a última música. Fica a correção. As imagens, da forma como foram editadas, e a fala da músico que se ouve no filmete (alegando que pretendia encerrar o show para não causar mais confusão), dão a entender que o show terminou antes do previsto.

Revolução dos Nerds ou Nerdismo (uma variação do Nazismo)?

Toda tentativa radical de cerceamento à liberdade de expressão é, em resumo, um atentado à sociedade e à inteligência.

As imagens do vídeo de jovens campuseiros tentando tirar à força um músico do palco assemelham-se às de uma manifestação nazista – cenas, evidentemente toscas, que remetem aos frames produzidos por Ettore Scola sobre a passagem de Hitler por Roma, durante o governo de Mussolini.

O rapper De Leve ontem foi vítima do nerdismo, uma variação longínqua do nazismo. A movimentação da massa em fúria emerge de uma visão conservadora e moralizante. Eram nerds ou a liga das jovens católicas que queriam impedir o rapper de balançar o cu?

De Leve é um artista contemporâneo. Um remixador. Um cara pioneiro na defesa da música livre, no manejo de direitos flexíveis. Por isso, esse post é em defesa do De Leve e de todos que lutam contra os cerceadores das liberdades

Aqui o blog do De Leve.